Tribuna Ribeirão
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Capítulo – O Encontro das Águas

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Elói Barboza*

 

No início deste 2026, era uma corrida de táxi em Balneário Camboriú. O rádio, como sempre, se achava dono da verdade. Bastou uma manchete atravessar o painel para acender o assunto que ninguém mais evitava.

— A polarização está destruindo o país — disse Miguel, no banco de trás.

— Ou revelando quem sempre foi quem — respondeu Enéas, com calma.

Miguel era de esquerda. Enéas, da direita. Ambos sabiam. Ambos respeitavam. Falavam baixo, frases medidas, como quem pisa em estrada molhada. Cada um defendia seu lado sem atacar o outro. O problema, concluíram juntos, não era mais só político: tinha entrado nas famílias, nos almoços de domingo, nos silêncios constrangedores.

Então veio a freada brusca.

Um carro fechou.

— Puta que pariu! — escapou de Miguel.

Enéas respirou fundo antes de responder:

— Só podia ser passageiro de esquerda… viajando sem cinto.

Silêncio.

O susto ainda vibrava no ar.

Depois, a risada veio solta.

— Talvez esteja na hora de mudar o preconceito — disse Miguel. — Esquerda e direita podem coexistir. Como o encontro das águas. Cada uma com sua cor, seu curso… mas no mesmo rio.

Enéas assentiu.

— Não é Deus, Pátria e Família contra ninguém. É todo mundo junto por um Brasil reconhecido, possível, humano.

O táxi seguiu pela orla.

O rádio continuou falando sozinho.

Dois lados do país dividiram o mesmo banco.

As águas, depois desse encontro, agradeceram — e seguiram rio abaixo.

 

* Jornalista há 43 anos, viveu 20 em Ribeirão Preto. Aos 64 anos editou seu primeiro livro – Peregrinos da Estrada. Assina também com o homônimo Eloi Leandro.

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