Com SAF no horizonte, Bafo termina 2025 em alta após início marcado por rebaixamento
Por Hugo Luque
O ano de 2025 foi uma verdadeira montanha-russa para o Comercial. Após mais uma reformulação, o Leão do Norte iniciou o ano com o sonho de retornar à Série A2 do Campeonato Paulista, mas acabou rebaixado para a Série A4 e distante de sua torcida.
No entanto, o fim do estadual trouxe ao clube a possibilidade de mudar mais uma vez e tentar fechar a temporada de forma digna. A mudança no comando técnico e as trocas no plantel surtiram efeito, e o Bafo chegou às férias após uma excelente Copa Paulista.
Fora de campo, o cenário também é de retomada da esperança. Depois de anos ruins e problemas políticos, com direito à renúncia do ex-presidente Fausi Henrique ao cargo de mandatário do clube, a diretoria negocia a transformação do Comercial Futebol Clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
Há um semestre, era quase impossível encontrar um comercialino empolgado com o futuro da agremiação. Após dois rebaixamentos seguidos, uma grande Copa Paulista e a possibilidade de virar SAF, porém, a expectativa é de um 2026 melhor para o Alvinegro.
O começo trágico
O Comercial chegou a 2025 com alguma esperança de melhora. No ano anterior, o time foi rebaixado na Série A2, mas conseguiu fazer uma boa campanha na Copa Paulista – parou nas quartas de final. A meta, então, era de buscar o acesso e retornar ao segundo nível estadual.
Para manter o bom desempenho do segundo semestre de 2024, a diretoria renovou o contrato do técnico Renato Peixe e foi ao mercado para trazer reforços, como o volante Guilherme Pitbull, velho conhecido do torcedor.

(Raul Ramos)
A ansiedade para subir de divisão se transformou em problema. A temporada começou com um empate, quatro derrotas e a demissão de Peixe. Gustavo Marciano assumiu interinamente e conquistou a primeira vitória no Paulista, diante do Catanduva. Era fevereiro e o Bafo estava cada vez mais distante do grupo de classificação para o mata-mata.
João Vallim foi contratado para mudar o cenário, mas deixou o Palma Travassos após somente duas partidas. De acordo com o presidente do clube, Antônio Carlos Campanelli, o jeito “raiz” do treinador incomodou os jogadores, que teriam feito ameaças caso ele não fosse demitido.
“’Olha, presidente, R$ 20 mil (multa rescisória de Vallim) para o senhor não vai ser nada, porque se o senhor não fizer isso, o time vai cair.’ Isso foram atletas falando. Perguntei se o Ademir tinha ouvido e ele disse que jogador de futebol é assim. Falei: ‘Não, isso não é jogador de futebol, é bandido. Isso é uma chantagem e eu não vou ficar de joelho para eles, não. Eu não aceito isso’”, comentou Campanelli.
Por fim, Vallim pediu para deixar o cargo, que passou a ser ocupado novamente por Gustavo Marciano, agora de forma definitiva até o final da campanha. Afundado na zona de rebaixamento, o Comercial chegou a esboçar uma reação e somou mais alguns pontos, mas não conseguiu evitar o descenso. Após o resultado desastroso, o ex-presidente Ademir Chiari, que ocupava o cargo de vice, pediu afastamento da posição. O cargo passou a ser ocupado por Wesley Rios.
O ressurgimento
Poucos torcedores ainda acreditavam que o restante do ano seria diferente. Porém, o clube ainda tinha a Copa Paulista para jogar e, por mais que a fase fosse péssima, os comercialinos esperavam ansiosamente os clássicos contra o Botafogo.
Para liderar as mudanças no Alvinegro, Campanelli promoveu o retorno do histórico técnico Pinho, agora no cargo de gerente de futebol. O veterano trouxe outro profissional experiente, Roberval Davino, para ser o treinador. Mais uma reformulação feita, agora de olho também na Série A4 de 2026, que tem limite de jogadores acima dos 23 anos.
Portanto, o perfil de contratações foi mais jovem. Desembarcaram em Ribeirão Preto nomes como o lateral-direito Wellington Petuba e o meia-atacante Carlos Bajé.
Entre os remanescentes, atletas menos experientes ganharam protagonismo, como o zagueiro Cristopher e o centroavante Felipe Rodrigues.
O resultado foi uma equipe leve, mais ofensiva e que começou a Copa Paulista com tudo. Nas quatro primeiras rodadas, três vitórias e um empate. Na lista de triunfos estava o Come-Fogo, no Palma Travassos. Foi o primeiro resultado favorável ao Bafo no clássico em uma década.
Inicialmente desacreditado, o Leão superou o status de “patinho feio” mencionado tantas vezes por Davino. Nem mesmo os tropeços diante de União São João e Francana brecaram o ímpeto comercialino. O time voltou a triunfar no Come-Fogo, desta vez no Estádio Santa Cruz/Arena Nicnet, e quebrou um jejum de 13 anos sem superar o rival como visitante. Além disso, confirmou a ida ao mata-mata com antecedência – terminou a fase inicial na vice-liderança do Grupo 2.
Nas oitavas de final, dois baques: a derrota na ida para a forte Inter de Limeira e a ausência de Carlos Bajé, principal articulador de jogadas da equipe, por lesão. Na raça, o Bafo deu o troco na volta e, nos pênaltis, com atuação heroica do goleiro João Lucas, avançou para as quartas.
Pela frente estava o São José, mais um time que investiu e sonhava com o título. Ainda sem Bajé, o Comercial venceu a ida por 1 a 0, em Ribeirão. No segundo jogo, o meia retornou e deu um passe primoroso para Felipe Rodrigues marcar o único gol do embate e colocar o Alvinegro na semifinal pela primeira vez desde 2011.
O sonho da final, que garantiria o retorno do Comercial a uma competição nacional em 2026, estava próximo, sobretudo quando o placar marcava 1 a 0 nos 90 minutos iniciais contra o XV de Piracicaba. Porém, no último lance da ida, o Nhô Quim empatou de pênalti e, na volta, marcou logo no início o gol da vitória e da classificação à final. Ainda assim, o elenco do conjunto ribeirão-pretano resgatou o orgulho da arquibancada e mostrou que pode haver esperança de dias melhores.

(Raul Ramos)
Dei parabéns e falei que, em mais de 60 times que trabalhei, esse foi um dos grupos mais profissionais e dedicados. Sem problemas, dentro das dificuldades que nós tínhamos. Ficamos mais de um mês sem campo para treinar, mas eles se mantiveram ali dentro, respeitando os funcionários, o nosso trabalho, e se dedicando ao máximo. Nunca vi um time com tanto nível de competitividade quanto esse”, enfatizou Roberval Davino após a eliminação.
Em busca da SAF ideal
Ao longo da temporada, a oscilação do Comercial dentro de campo dividiu as manchetes e as atenções com o extracampo com clube, que passou todo o ano em conversas para a transformação em SAF. Em fevereiro, veio a primeira procura oficial da era Campanelli.
A Total Player, empresa dos irmãos e ex-jogadores Paulo e Calucho Jamelli, queria assumir o Bafo e investir cerca de R$ 100 milhões ao longo dos próximos dez anos – tanto no time de futebol como fora de campo, em reformas e modernizações. No mês anterior, torcedores protestaram na frente do Palma Travassos, pediram a saída de dirigentes e a transformação em SAF.
Inicialmente contra a mudança, o presidente Campanelli passou a ouvir possíveis interessados. Ao longo dos meses, os dirigentes e a Total Player avançaram nas conversas. Porém, outros dois possíveis investidores surgiram na reta final do ano, quase simultaneamente.
Um grupo de empresários chamado procurou a diretoria e apresentou uma proposta ousada: a “SAF híbrida”, que levaria até o final do mandato de Campanelli, em 2027, para ser totalmente implementada. No entanto, o Conselho Deliberativo não aprovou.
Assim, a disputa ficou entre a Total Player e a Worldwide Soccer Academies (WWSA), do austríaco Markus Schruf, que trabalha há 25 anos na área de gerenciamento esportivo e foi responsável pela expansão de escolinhas ligadas à Internazionale de Milão, da Itália, em território brasileiro.
No fim de outubro, a WWSA recebeu autorização dos conselheiros para continuar as negociações. A proposta de aporte de Schruf girava em torno de R$ 205 milhões ao longo de uma década. No entanto, depois de avaliações minuciosas, o Conselho voltou atrás na última semana e encerrou as tratativas. Agora, a “bola da vez” passa a ser novamente e Total Player, com a possibilidade de novos interessados surgirem.
No meio de tudo isso, a agremiação assinou contrato com a Kappa, que será a nova fornecedora esportiva do Comercial pelos próximos três anos.
Além de estudar um possível acordo para virar clube-empresa, o Leão do Norte se reforça dentro de campo. Foram anunciados os zagueiros Cristhian Gabriel e Vyctor, o volante Vinicius, os meias Marcos Muzzi e Samuel, e os atacantes Mikael, Gustavo e Paulo Victor. Além disso, renovaram seus vínculos o técnico Roberval Davino, o goleiro Jeferson Reis, os laterais Petuba e Alex Silvério, o zagueiro Lucas Lima, o volante Felipe Mian e o meia Fofão.
A temporada de 2026 do Comercial começa no fim de semana de 1º de fevereiro, fora de casa, contra o Ecus. Antes, o sub-20 disputa a Copa São Paulo de Futebol Júnior, que volta a Ribeirão Preto pela primeira vez desde 2018. O Bafo está no Grupo 10, com sede no Palma Travassos, ao lado de Atlético-PI, Noroeste e América-MG.

