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Cultura fast food

Rodrigo Gasparini Franco *
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Acabei de ler o livro Toujours Provence, de Peter Mayle, e anotei uma frase que achei não apenas uma boutade – aquela tirada espirituosa de mesa de bar -, mas algo de uma profunda eloquência: “Se você mencionar Rimbaud em Bel Air, todos suporão que você está se referindo a Sylvester Stallone”.

Tal afirmação funciona quase como um boletim epidemiológico do nosso tempo. Veja bem, não estou dizendo que Rimbaud tenha sido cancelado; ele apenas perdeu espaço para um algoritmo mais carismático e um bíceps mais reconhecível. O fato é que, no condomínio fechado da cultura global, a poesia simbolista não compete com franquias de ação; ela sequer passa pela guarita.

Tampouco sugiro que esse fenômeno seja uma conspiração maligna, arquitetada em uma sala escura por executivos que acariciam gatos persas ao estilo Austin Powers. É algo mais eficiente: trata-se de um monopólio ideológico suave e perfumado, perfeitamente embalado para presente, como um Cavalo de Troia infiltrado na sétima arte.

O cinema, que um dia foi instrumento de ruptura, hoje passa por uma espécie de spa corporativo: sai de lá relaxado, hidratado e incapaz de causar qualquer desconforto relevante. Se incomoda, edita-se. Se questiona, suaviza-se. Se provoca, transforma-se em slogan.

A cultura mundial, influenciada pelo lado perverso da globalização – the world is flat, como diria Thomas Friedman – encontra-se massivamente conectada por plataformas que prometem diversidade infinita: os chamados streamings. Contudo, eles acabam oferecendo, curiosamente, as mesmas opções com embalagens distintas.

O rebelde agora vem com trilha sonora licenciada. A crítica social aparece calibrada para não atrapalhar a bilheteria do fim de semana. A estética é refinada, a fotografia, impecável, e o discurso, cuidadosamente temperado – nada muito amargo, nada que exija mastigação lenta. É a versão gourmet da contestação: parece sofisticada, mas foi projetada apenas para vender.

Nesse cenário, mencionar Rimbaud é quase um ato subversivo, não pelo conteúdo, mas pela estranheza em si. O poeta que escreveu sobre a “desordem dos sentidos” e incendiou a linguagem provavelmente seria aconselhado hoje, por um departamento de marketing, a “humanizar a marca” e investir em vídeos curtos para o Instagram.

Nada muito longo ou complexo; aqui, a superficialidade é a regra. Se há rebeldia, ela precisa caber no formato vertical e ter potencial de engajamento. Caso contrário, não performa.

A verdade é que o monopólio ideológico da arte não proíbe nada explicitamente; ele apenas torna invisível o que não se encaixa. É um filtro elegante. As obras que poderiam tensionar estruturas sociais acabam convertidas em “insumos para o feed”. A crítica vira estética; a estética vira produto; o produto vira tendência; e a tendência, claro, tem prazo de validade. Tudo circula, nada permanece.

A transformação social, quando aparece, é tratada como um efeito colateral simpático, desde que não afete patrocinadores nem provoque catarse em um público já deveras apático.

Por outro lado, há uma ironia notável: nunca se produziu tanta “arte” sob o conceito duchampiano; nunca houve tantas vozes, imagens e sons. E, ainda assim, a sensação é de um déjà-vu permanente. A diversidade prometida lembra um cardápio de fast-food: muda-se o nome do prato, mas o molho é o mesmo. A cultura globalizada uniformiza até a diferença. O exótico é bem-vindo, desde que domesticado. O contestador é celebrado, desde que rentável e que, de certa forma, mantenha a população massificada.

Não pretendo aqui demonizar Sylvester Stallone; pelo contrário, ele cumpre seu papel com competência, ao menos em Rambo II: A Missão (contém ironia). O problema surge quando a referência automática substitui a reflexão – este é o punchline da boutade. É o momento em que um nome evoca apenas celebridade, e não inquietação; quando a arte deixa de ser ferramenta para reorganizar o mundo e passa a ser trilha sonora de consumo. A edição edulcorada da estética é, talvez, o sintoma mais curioso.

Obras visualmente deslumbrantes e discursos aparentemente críticos estão integrados à lógica de mercado. A revolução agora vem com manual de uso e parceria estratégica, ditada pela tirania do marketing. A indignação é patrocinada. O inconformismo tem assessoria de imprensa. A apatia do público é, por ora, cortesia da globalização.

No fim das contas, a frase não fala apenas de um desconhecimento literário; ela esgarça o tecido cultural em que a memória é moldada apenas pelo que é mais vendável. Aliás, “the show must go on”, não é mesmo?

Enquanto o espetáculo ocupa o centro do palco, seguimos confundindo intensidade com visibilidade. Como o personagem Jean des Esseintes diz no romance Às Avessas: é preciso “deformar a pele de Farsália”. Ou seja, se quisermos que a arte continue subversiva e capaz de quebrar paradigmas, precisamos “deformar” a roupagem dessa estética atual, devolvendo à verdadeira arte o grito de guerra do anti-herói.

Acredito que o gesto mais radical e libertário de hoje seja insistir naquilo que não se traduz imediatamente em lucro ou meme. Por isso, é preciso mencionar Rimbaud, mesmo correndo o risco de ser confundido com um astro de ação. Afinal, se a arte não serve para bagunçar referências e desafiar certezas, resta apenas o conforto do roteiro conhecido e, convenhamos, já sabemos exatamente como ele termina. THE END.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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