André Luiz da Silva*
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No último domingo acompanhei o velório do senhor Celso, pai da querida amiga Denise. Após o sepultamento, ainda na necrópole, conversava com sua sogra quando ela comentou, sobre duas crianças da família que demonstravam curiosidade em conhecer um cemitério. Queriam saber se ali era permitido brincar, correr, rir. A pergunta, tão simples quanto desconcertante, levou-me de volta à infância, quando aquele espaço era cercado de medo e mistério, embora saibamos, cedo ou tarde, tratar-se de nossa última morada.
Velórios são espaços interessantes e, apesar da tristeza pela perda, nessas ocasiões, surgem recordações felizes, frases de conforto, teorias sobre a vida e a morte. Alguém sempre afirma, com ar resignado, que quando chega o nosso dia não há o que fazer. É verdade que cada pessoa parece ter o seu momento, mas será mesmo que tudo precisa ser assim? Será que, com tecnologia, informação e, sobretudo, ações preventivas, não podemos alterar o curso de muitas histórias?
No setor da saúde, cientistas preveem novidades nos tratamentos para câncer, obesidade, Alzheimer, diabetes, além da disponibilização de novas imunizações, porém na segurança pública, ao observar estatísticas recentes sobre violência, a realidade brasileira se impõe de forma dura. Todos os dias, 97 pessoas são assassinadas de forma intencional no país. A cada 24 horas, quatro mulheres perdem a vida em decorrência do feminicídio. No trânsito, o tempo é ainda mais cruel: a cada 15 minutos, uma existência é interrompida. Há, porém, uma morte menos visível e igualmente devastadora, aquela que corrói lentamente. Diariamente, 10.137 mulheres são vítimas de violência doméstica, enquanto os estupros alcançam a alarmante marca de 187 ocorrências por dia.
Apresentar e analisar estatísticas não é um exercício frio nem meramente técnico. É uma necessidade para compreender a sociedade em que vivemos e oferecer subsídios para decisões, planejamentos e ações capazes de transformá-la. Dados bem interpretados se convertem em políticas públicas, prevenção e, sobretudo, em melhor qualidade de vida.
Mas é inevitável perguntar: qual é o nosso papel nesse enredo? Seremos protagonistas ou coadjuvantes? Estaremos entre os agredidos, violentados e atropelados? Ou entre os agressores, estupradores e imprudentes? Talvez sejamos apenas espectadores, sentados diante das telas, consumindo a desgraça alheia e agradecendo por não ter acontecido conosco, ignorando que amanhã poderemos ser as próximas vítimas — ou autores.
Vivemos em uma sociedade onde a religiosidade cresce de forma significativa. Ainda assim, não é possível transferir ao divino toda a responsabilidade pelo que ocorre, usando a fé como álibi para a omissão. Mais do que oração, cabe a cada um assumir atitudes concretas e transformadoras. No trânsito, cuidar da manutenção do veículo, respeitar regras, sinalizações e limites, praticar a direção defensiva. Em casa, rever posturas, trocar agressividade por acolhimento, atenção e diálogo. Diante de situações de risco e violência, orientar as vítimas e denunciar os agressores é exercício de cidadania.
Em nosso cotidiano, é sempre possível sermos melhores com o próximo, sobretudo com nossos familiares. Assim, nos momentos de perda, a dor é atenuada pela certeza de que oferecemos o nosso melhor àqueles que partiram. E, quando chegar o nosso derradeiro dia, que os que estiverem ali, no Campo Santo, entre uma lágrima e um sorriso, possam dizer com serenidade que deixamos saudades — e que nossas ações produziram impactos positivos e duradouros na vida de outras pessoas.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

