José Moacir Marin *
Ensaios clínicos das vacinas Comirnaty, da Pfizer-BioNTech, e Spikevax, da Moderna (baseadas na tecnologia de mRNA) seguem sob revisão e têm sido alvo de críticas e questionamentos. Documentos confidenciais da Pfizer, posteriormente tornados públicos, apontaram cerca de 1,6 milhão de eventos adversos registrados até agosto de 2022.
Entre os possíveis efeitos colaterais, destacam-se alterações no ciclo menstrual relatados por algumas mulheres. A saúde menstrual é reconhecida como um indicador relevante da saúde geral e da fertilidade feminina. Ainda assim, dados dessa natureza não foram incluídos nos ensaios clínicos das vacinas contra a COVID-19, embora as mulheres representassem aproximadamente metade dos participantes.
Desde então, diversos estudos têm relatado mudanças no ciclo menstrual após a vacinação durante a pandemia.O ciclo menstrual é regulado por uma complexa sinalização hormonal mediada pelo eixo hipotálamo-hipófise-ovário (HHO), principal sistema endócrino envolvido na regulação da fertilidade feminina. Alterações nesse eixo podem resultar em distúrbios ovulatórios e, em casos mais severos, infertilidade.
Assim sendo, é importante compreender que o vírus SARS-CoV-2 foi amplamente estudado e sua proteína Spike passou a ser considerada um dos principais elementos de ação, por seu potencial imunogênico e por desencadear respostas inflamatórias significativas nos tecidos humanos. Tanto a Comirnatyquanto a Spikevaxutilizam o mRNA para induzir a produção dessa proteína em grande quantidade no organismo. Segundo críticas levantadas, trata-se de versão modificada da proteína Spike, capaz de permanecer no corpo por períodos prolongados e, em tese, escapar de mecanismos habituais de defesa antiviral.
Uma revisão conduzida por Smaardijk(2024), que analisou 61 estudos, identificou alta incidência de, pelo menos, uma desordem menstrual após a vacinação com mRNA modificado para a proteína Spike. Entre os achados mais frequentes, observou-se aumento do volume de sangramento no primeiro ciclo pós-vacinação. Na maioria dos casos, os parâmetros retornaram ao padrão anterior em até cinco meses, embora alguns estudos indiquem períodos mais prolongados. Também foi relatado um leve aumento na duração da menstruação (de seis para cerca de seis dias e meio), com registros pontuais de ciclos estendidos por até duas semanas. Além disso, houve relatos de intensificação da dor pré-menstrual e, de forma mais preocupante, episódios de sangramento em mulheres na pós-menopausa, com duração variando de um a sete dias.
Os mecanismos por trás dessas alterações ainda não estão completamente esclarecidos, mas algumas hipóteses vêm sendo discutidas. Uma delas sugere que a proteína Spike pode induzir uma resposta inflamatória sistêmica, com liberação de citocinas pró-inflamatórias, como interleucina-1β, interleucina-6 e interleucina-8. Esse processo poderia interferir na sinalização neuroendócrina e, consequentemente, impactar a ovulação. Outra hipótese considera que a produção prolongada da proteína poderia contribuir para um estado inflamatório persistente, afetando a microcirculação e favorecendo quadros de coagulopatia e micro trombose, com possíveis repercussões no sistema reprodutor feminino.
Diante desse cenário, impõe-se a necessidade de ampliar as pesquisas sobre a saúde reprodutiva da mulher, a fim de avaliar com maior precisão os possíveis impactos das vacinas de mRNA contra a COVID-19 — um esforço que, ao que tudo indica, ainda demandará anos de investigação.
* Professor aposentado de Genética e Biologia Molecular da USP/ Campus Ribeirão Preto.

