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É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre

Raquel Montero
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Acabamos de iniciar um ano novo. E com um ano novo é comum que se tenha a esperança recarregada para dias melhores e em sermos pessoas melhores. Porém, na madrugada do dia 03 de janeiro vimos os Estados Unidos invadirem e atacarem mais um país, mais um povo. Dessa vez foi a Venezuela.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em comunicado oficial que suas forças haviam realizado ataques à Venezuela e capturado o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

Maduro e sua esposa continuam sequestrados e mantidos nos Estados Unidos, e até agora já foram identificadas 58 mortes na Venezuela em decorrência da invasão dos Estados Unidos.

Aqui neste texto não repetirei o que já foi de forma eloquente escrito e falado por mentes brilhantes e progressistas sobre o caráter flagrantemente ilegal, ilegítimo e canalha do ataque feito pelos Estados Unidos contra a Venezuela, e, sobretudo, contra um povo, bem como não repetirei sobre ser um flagrante histórico permanente que os Estados Unidos querem se apropriar do petróleo existente em território da Venezuela, e querem desse jeito, golpeando, invadindo, atacando.

Nada justifica a invasão de um país sobre o outro. Nada! Isso viola todo o direito internacional que foi criado para estabelecer normas que disciplinam as relações entre os países.

Não repetirei porque o objetivo deste texto é, partindo deste acontecimento deplorável e nefasto praticado pelos EUA, propor a reflexão para que na oportunidade de mais um ano novo tenhamos nós, em nossas vidas, causas que ao lutarmos por elas possamos transcender de uma visão individual e limitada de vida, para um visão verdadeiramente fraterna e universal, que veja a vida como um todo, considerando todos os seres em cada uma das nossas escolhas e ações. E assim, talvez, não vermos mais o que assistimos agora na Venezuela.

Faço, então, neste texto, uma citação pertinente, e referente ao que escreveu Frei Betto sobre a busca por felicidade, causas e sentidos de vida. Em seu livro Insaciável busca da felicidade, Frei Betto discorre sobre uma reunião entre amigos que conversavam sobre o que seria o maior bem que um ser humano pode obter. A conversa entre os amigos recorreu aos filósofos, e os amigos teriam citado reflexões de Platão, Sócrates, Epicuro, Descartes, Kant, Sartre, cristianismo, e, na sequência, os amigos deixaram de lado os filósofos e quiseram recorrer às suas próprias experiências, para, assim, um dos amigos, o mais velho, expressar; “O que faz uma pessoa feliz – disse ele – não é a posse de um bem ou uma vida confortável.

É, sobretudo, o projeto de vida que ela assume. Todo projeto – conjugal, profissional, artístico, científico, político, religioso – supõe uma trajetória cheia de dificuldades e desafios. Mas é apaixonante. E é a paixão ou, se quiserem, o amor, que adensa a nossa subjetividade. E todo projeto supõe vínculos comunitários. Se o sonho é pessoal, o projeto é coletivo.”
E finaliza Frei Betto; “Demos razão a ele. Viver por um projeto, uma causa, uma missão, um ideal ou mesmo uma utopia, é o que imprime sentido à vida. E uma vida plena de sentido é, ainda que afetada por dores e sofrimentos, o que nos imprime felicidade.”

E se tem amor na causa, no projeto, esse amor ainda tem como consequência inspirar outras pessoas, a coletividade. Goethe, em seu livro Fausto, um dos livros mais aclamados da literatura mundial, assim escreveu sobre um dos diálogos de Fausto; “Se não sentires por dentro, não conseguirás externar. Se não brotar de tua alma, não conseguirás atingir os corações com um sentimento forte e espontâneo.”

Fausto seria o próprio Goethe, escrevendo sobre si. Ao fazer a segunda parte de Fausto, 24 anos após fazer a primeira parte, as agruras e alegrias da existência acarretaram mudanças visíveis em sua personalidade e no seu modo de ver a vida, repercutindo também em seu personagem, que veio a transforma-se, na segunda parte da obra, num homem de extrema lucidez, que tem como foco de sua esperança a formação de um povo livre, que livremente possa desfrutar de sua existência. Direito que devemos defender também para o povo venezuelano.

Dos filósofos citados por Frei Betto, dos Fautos da vida consagrados mundialmente, de quem já foi, de quem continua, podemos constatar que a vida não é fácil. E, ainda assim, “viver é melhor que sonhar”. Mas, para viver, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”.

*Advogada, pós-graduada em leis e direitos

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