A participação de 15% dos veículos eletrificados nas vendas de automóveis leves em janeiro de 2026 confirma que a transição energética no transporte brasileiro deixou de ser marginal. Com mais de 23 mil emplacamentos no mês e crescimento de 88% em relação ao ano anterior, o setor reflete mudanças no perfil do consumidor, na estratégia das montadoras e no ambiente regulatório.
Dados do Ministério de Minas e Energia indicam que o transporte responde por quase metade do consumo de energia no país, ainda fortemente dependente de combustíveis fósseis. Já o Ministério do Meio Ambiente aponta o setor como um dos principais responsáveis pelas emissões. Nesse contexto, o avanço dos eletrificados representa uma resposta às pressões ambientais e aos compromissos de descarbonização.
Fatores econômicos também impulsionam o movimento. A alta dos combustíveis, a ampliação da oferta de modelos e incentivos pontuais, como redução de IPVA em alguns estados, favorecem a migração para tecnologias mais eficientes. Ainda assim, o crescimento revela desequilíbrios importantes.
A forte concentração no Sudeste, responsável por quase metade das vendas, evidencia que a eletromobilidade segue associada à renda e à infraestrutura urbana. Regiões como Norte e parte do Centro-Oeste enfrentam limitações logísticas, energéticas e de custo, reforçando desigualdades regionais.
A infraestrutura de recarga é outro entrave. Informações da Aneel mostram que a rede pública ainda é restrita e concentrada em grandes centros. Em muitas cidades, o uso depende da recarga residencial, limitando o acesso de parte da população.
No campo industrial, o país ainda importa componentes estratégicos, como baterias e sistemas eletrônicos, o que reduz o impacto na geração de valor interno. Apesar das diretrizes da política de neoindustrialização, a consolidação de uma cadeia nacional permanece lenta.
O crescimento dos híbridos flex revela adaptação ao contexto brasileiro, ao combinar eletrificação e etanol. No entanto, sem uma política clara de longo prazo, essa solução pode adiar investimentos mais robustos em eletrificação plena.
O preço também continua sendo barreira. Veículos eletrificados permanecem mais caros que os modelos convencionais, o que restringe o acesso e mantém o mercado concentrado em faixas de maior renda.
Os números de 2026 indicam que o Brasil ingressou de forma definitiva na transição automotiva. Transformar esse avanço em desenvolvimento sustentável, porém, exige integração entre infraestrutura, indústria, meio ambiente e mobilidade. Sem isso, o país corre o risco de consolidar um mercado moderno, mas restrito, desigual e dependente.

