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Enquanto uns cortavam suas Havaianas

Tais Roxo Fonseca
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Tudo começou com um comercial das havaianas, quase banal: Fernandinha Torres, a atriz escolhida para fazer a campanha publicitária, com seu humor elegante e inteligência afiada, dizia que: “Desejo a todos que não comecem o ano novo com o pé direito e sim com os dois pés, os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, enfim, os dois pés aonde você quiser- vai com tudo, havaianas todo mundo usa.” Esse era o inteiro teor da propaganda com a Fernandinha, que sabemos, recebeu o Oscar de melhor atriz 2025, pela sua brilhante atuação no filme “Ainda Estou Aqui”, que conta a corajosa luta de Eunice Paiva para encontrar seu marido, o deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura Militar no Brasil.

A frase dita na campanha publicitária das havaianas evocava otimismo, movimento e futuro. Mas no Brasil polarizado de hoje, até um par de chinelos pode virar campo de batalha ideológica. Rapidamente, parte do público decidiu que a frase da Fernandinha escondia uma mensagem política.

Para alguns, entrar com os dois pés virou sinônimo de militância de esquerda, de posicionamento ideológico disfarçado. Houve quem se sentisse traído, magoado e ofendido, e então, veio o gesto simbólico: inúmeras pessoas gravaram vídeos e postaram na internet cortando suas próprias havaianas, como forma de protesto. Um ritual quase performático onde o consumo virou discurso e o chinelo o manifesto.

Enquanto o Brasil se dividia nas redes e debatia se a Fernanda Torres podia ou não falar o que falou, se a propaganda era ou não política, se o boicote aos chinelos fazia sentido o Congresso Nacional, fazia o que mais sabe fazer, votava contra os interesses do povo brasileiro, votava contra o interesse público, aprovando medidas que irão afetar diretamente a vida real , aquela vida do povo humilde que não cabe em vídeos de internet, porque não possuem o charme necessário para ganhar curtidas e viralizar.

A realidade brasileira é feia e desigual e os cortes orçamentais aprovados  pelos legisladores foram em áreas essenciais das universidades federais, da ciência e assistência estudantil, o que a curto prazo significará laboratórios fechados, pesquisas interrompidas, bolsas de estudos canceladas, restaurantes universitários ameaçados.

Para milhares de estudantes pobres, muitos deles os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior, isso significará a possibilidade real de abandonar o curso. As universidades públicas federais que deveriam ser pontes virarão obstáculos na estrada, grande parte dessas universidades foram criadas justamente para reduzir desigualdades, levar o ensino superior ao interior do País e democratizar o acesso ao conhecimento.

O contraste é quase irônico, enquanto cidadãos cortavam seus próprios chinelos em nome de uma disputa entre esquerda e direita, o Congresso cortava o futuro dos brasileiros sem qualquer cerimônia. Enquanto o debate público se concentrava em uma fase publicitária, decisões políticas eram aprovadas sem qualquer conhecimento e ou engajamento da população.

No fim das contas, talvez a imagem mais fiel desse período seja a de um Brasil distraído, brigando por propaganda, enquanto decisões que afetam educação, ciência e inclusão social vão sendo tomadas quase em segredo.

Cortaram-se as havaianas, cortaram-se verbas das universidades e o congresso segue votando. Por aqui, no Estado de São Paulo também somamos prejuízos em 2025, em São Paulo, a maior cidade do País, está afundada em mais um daqueles roteiros que já viraram hábitos; bairros inteiros sem água, apagões sucessivos, enquanto isso, o governador do estado passará o seu réveillon em Miami, longe do calor e da torneira seca. E assim seguimos distraídos.

*Advogada

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