André Luiz da Silva *
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Recentemente, Ribeirão Preto sediou a primeira edição da Jornada Artística e Literária para uma Educação Plural. Mais do que um evento, foi um chamado. Entre os temas, um se impôs com urgência: a necessidade de cumprir a legislação que determina o estudo da história da África e da população negra no Brasil como chave para compreender quem somos — e, sobretudo, quem ainda podemos ser.
Conhecer essa história não é um gesto acadêmico isolado; é um ato de reparação, um enfrentamento direto ao racismo estrutural e um reconhecimento da matriz africana que sustenta a formação cultural, social e econômica do país.
Quase em eco a esse movimento, na quarta-feira, 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica: o tráfico transatlântico de escravos foi reconhecido como “o crime mais grave contra a humanidade”. Não se trata apenas de uma declaração — é um marco moral que convoca o mundo a olhar para trás sem desviar os olhos.
O texto propõe que os Estados-membros considerem desculpas formais, contribuam para um fundo de reparações e promovam a restituição de bens culturais — obras de arte, monumentos, manuscritos e documentos — aos seus países de origem, sem ônus. Copatrocinada por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique, e defendida por Timor-Leste, a resolução foi aprovada por 123 países, com três votos contrários e 52 abstenções — entre elas, a de Portugal, única nação lusófona a não apoiar o texto.
A posição foi idêntica à de outras potências europeias que enriqueceram com o comércio de pessoas escravizadas. Afinal, grande parte da riqueza da Europa e das Américas foi erguida sobre o suor, o sangue e as lágrimas de milhões de africanos submetidos ao trabalho forçado.
O documento reconhece que esse sistema provocou uma “ruptura profunda na história humana”, com consequências que atravessaram séculos e continentes. Mais do que memória, trata-se de reconhecer que as reivindicações por reparações são “um passo concreto rumo à justiça histórica” para africanos e seus descendentes.
A presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, relembrou os campos de cana-de-açúcar nos Estados Unidos, as plantações de café no Brasil colonial e em territórios como Barbados e Jamaica. Registrou que enfrentar essas injustiças é um imperativo moral. Já o secretário-geral, António Guterres, reforçou que o mundo que se deseja — fundado na liberdade, igualdade e justiça — está ao alcance, desde que haja coragem para agir.
Agora, o desafio é a implementação. Cabe aos Estados transformar palavras em gestos concretos: pedir desculpas, reparar danos, devolver patrimônios. Mais do que política, trata-se de humanidade.
Entre os séculos XVI e XIX, o tráfico transatlântico de escravos remodelou África, América e Europa. Forçou a migração de milhões, redefiniu economias e dilacerou estruturas sociais. Antes disso, a África era um mosaico de reinos e impérios, como Mali e Songai, com rotas comerciais sofisticadas, agricultura pujante e produção artesanal avançada. A escravidão ali existente tinha outra natureza — doméstica ou por dívida — distante da lógica brutal e mercantil que viria a se impor.
Sem hierarquizar dores, é impossível ignorar um contraste histórico: enquanto o Holocausto foi amplamente reconhecido como o mal absoluto, o tráfico de africanos escravizados por vezes foi naturalizado, lançado à sombra de uma invisibilidade que agrava sua própria monstruosidade.
Romper esse silêncio é tarefa urgente. E talvez comece assim: pela educação, pela memória e pela coragem de nomear, sem rodeios, aquilo que nunca deveria ter sido esquecido.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

