Tribuna Ribeirão
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Existe vida antes da morte?

Prof.ª Dr.ª Maria Helena da Nóbrega *
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Para tratar de vida e morte, começo pelo testemunho de Machado de Assis. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o defunto autor avisa: “Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte.”A ponte indica a passagem de um lugar a outro, onde todos chegarão.

Realizar esse percurso nunca foi fácil, mas tem ficado cada vez mais desafiador. Enquanto no início do século XX a identidade coletiva predominava e os relacionamentos eram mais estáveis e fixos, na segunda metade desse período os modos de vida tradicionais foram se esgarçando e sendo substituídos pela busca do prazer individual.

Sem respostas prontas e sem o sistema de massificação, a convivência social se redefiniu no que Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida. Segundo o filósofo polonês, tudo é descartável.

A ideia de transformação permanente fica mais evidente no século XXI e, como consequência, a capacidade de adaptação está em primeiro plano. É preciso se reinventar, como estamos vendo ocorrer em vários setores. Antes a trajetória profissional era mais linear: formava-se e seguia-se uma profissão até se aposentar. Hoje é comum iniciar um curso, interromper e ir para outro, mudar de área, abrir novas possibilidades.

No plano das relações interpessoais também há mais instabilidade. É raro manter as amizades ao longo da vida, além da dificuldade de construir novos vínculos. O itinerário tradicional namorar-noivar-casar ganha variações e roteiros inesperados. Tudo se dissolve com mais facilidade, como Bauman analisou.

A vida antes da morte, portanto, é muito mais complexa na atualidade do que no século passado. Sem fórmula pronta, as transformações constantes exigem autoconhecimento e autonomia, pois cada um tem que descobrir como se inventar e se reinventar num cenário de incertezas.

Além de encarar essas transformações, que nunca foram tão rápidas, é preciso acostumar-se à tecnologia digital, presente em todos os setores da vida cotidiana. O ideal é dominá-la, e não ser dominado por ela. A comunicação é muito rápida, mas o ser humano continua precisando do contato visual e do tempo de maturação de ideias. Manter um ritmo humano, portanto, é primordial para uma vida saudável.

Toda essa situação de transformação permanente em ritmo acelerado cria solidão, ansiedade, angústia, sentimentos que adoecem as pessoas.Tudo indica que só é possível superar esse momento histórico colocando o ser humano no centro, valorizando o fator humano, e não o tecnológico.

Para que a vida antes da morte aconteça, é preciso priorizar sentimentos e relacionamentos genuínos. O mundo altamente tecnológico pode ser utilizado a favor da humanidade, desde que não destrua a criatividade, o raciocínio crítico, a empatia, o que nos faz humanos, afinal.

Como espécie, já demonstramos largamente nossa adaptabilidade. No caso do século XXI, os desafios exigem autoconfiança, otimismo a despeito do entorno, abertura para o novo e diferente, predisposição para errar, aprender, esquecer, reaprender e criar uma vida significativa antes da morte. Em resumo: é preciso lidar com o que está dentro de nós.

A pergunta do título merece ser respondida por cada um, a partir das ações pessoais para enfrentar as demandas contemporâneas. A outra – Existe vida após a morte? – é uma pergunta retórica. Todo mundo sabe que sim! Como vida é transformação, é claro que sim. O corpo se transforma e segue os processos biológicos de decomposição, ou seja, se reorganiza em outras matérias e volta para o meio ambiente.

* Professora aposentada da Universidade de São Paulo, na área de ensino de português para estrangeiros

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