O avanço recente das matrículas no ensino superior brasileiro, que alcançaram 10,23 milhões de estudantes entre 2023 e 2024, sinaliza ampliação do acesso. O crescimento de 2,5%, acima da média populacional na maior parte do país, reforça o papel da universidade como caminho de mobilidade social. No entanto, os dados do Inep/MEC também evidenciam contradições que colocam em dúvida a qualidade e a sustentabilidade dessa expansão.
A predominância do setor privado, responsável por cerca de 80% das matrículas, se consolida em um cenário de mudanças nas políticas públicas de financiamento estudantil. Dados do Ministério da Educação mostram retração em programas como o Fies em relação ao auge da década passada, o que alterou o perfil de acesso. Ao mesmo tempo, a expansão ocorre, sobretudo, via ensino a distância, que já supera o presencial e responde por mais da metade das matrículas, ampliando o acesso, mas levantando questionamentos sobre qualidade e suporte acadêmico, apontados em avaliações do próprio Inep.
Essas fragilidades ficam mais evidentes nos índices de evasão. Um em cada quatro estudantes abandona cursos públicos, enquanto, no setor privado, a evasão atinge dois em cada cinco alunos. Os dados indicam dificuldades que vão além da questão financeira, envolvendo adaptação acadêmica, estrutura dos cursos e ausência de políticas eficazes de permanência. O Plano Nacional de Educação já estabelece metas que combinam acesso e conclusão, mas os resultados ainda estão aquém do esperado.
O crescimento do ensino superior no Brasil, portanto, não pode ser avaliado apenas pelo número de matrículas. A expansão existe, mas ocorre com desequilíbrios estruturais que comprometem seu impacto social. Sem avanços na qualidade, na regulação e no apoio ao estudante, o país amplia o acesso, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse avanço em formação efetiva e desenvolvimento.

