Por: Adalberto Luque
Prestes a completar 40 anos de atividades, o Delirivm Teatro de Dança não tem muitos motivos para comemorar as quatro décadas de atuação desde sua fundação. Tradicional companhia de teatro e dança da cidade de São Simão, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto, o grupo é um dos ocupantes do Centro de Convivência da Melhor Idade Irineu Quartarollo.
Construído no início da década de 1990, o local é uma conquista dos idosos de São Simão, que contaram com o trabalho do então deputado estadual, o saudoso radialista ribeirão-pretano José Wilson Toni, com a aprovação do então governador do Estado de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho.
Toni, inclusive, esteve presente no lançamento da pedra fundamental, que marcou o início das obras. Desde que foi construído e inaugurado com verbas do Estado, o local é ocupado por dois grupos. Além do Delirivm, o Grupo de Convivência Renascer da Terceira Idade de São Simão também ocupa suas dependências.
João Roberto de Souza, conhecido como João Butoh, é diretor dos dois grupos que ocupam o Centro de Convivência. Ator, bailarino, coreógrafo, figurinista, professor, jornalista e mestre de butoh, tem uma forte ligação, há muito tempo, com os idosos.
Foi conselheiro estadual do Idoso por quatro anos, na gestão do governador João Dória. Também foi conselheiro municipal do Idoso em São Simão. Ele está à frente do movimento que luta para retomar o local e contra o que denomina desamparo de pessoas idosas em São Simão.
Segundo Butoh, no dia 21 de dezembro do ano passado, um mutirão entre os participantes lavou toda a área do Centro de Convivência da Melhor Idade Irineu Quartarollo. Prepararam o local para a tradicional apresentação de final de ano, que ocorreria no final de semana após o Natal.
Fechaduras trocadas
Ao regressar ao Centro de Convivência, no dia 26 de dezembro, para lavar os utensílios que utilizariam no final de semana festivo, veio a triste constatação: eles foram impedidos de entrar no local.
Segundo Butoh, o prefeito determinou que um fiscal e um chaveiro fossem ao centro para substituir todas as fechaduras e cadeados. “Fomos surpreendidos. O Centro estava totalmente lacrado. O prefeito, dr. Isaias Leão de Souza, fechou sem que qualquer notificação prévia, conversa ou processo administrativo fosse apresentado. Barraram os idosos na porta de um espaço que gerimos há quase quatro décadas”, lamenta.

Mas o problema vai além. De acordo com o diretor dos coletivos que ocupam o local destinado pelo governo do Estado, o prefeito teria ordenado que levassem uma geladeira do Grupo Renascer para uma escola pública.
Ele diz que os bens dos dois grupos estão se deteriorando. No interior, estariam móveis, eletrodomésticos, televisores, fogão, freezer, cadeiras e mesas que não pertencem à Prefeitura de São Simão.
“Não existe um parafuso do poder público dentro daquelas salas. Tudo o que está ali dentro foi comprado com o suor dessas pessoas idosas, por meio de rifas, promoções e doações ao longo dos anos. E o caso mais grave foi a remoção de uma geladeira de propriedade do Grupo Renascer”, dispara Butoh.
Ele lembra que o prédio foi construído para ser sede do Grupo Renascer e, em 2017, o espaço foi certificado pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura. “O Centro de Convivência é o coração das atividades há quase 40 anos. Arte, oficinas, ensaios e muitas atividades. Lá, guardamos figurinos e adereços”, acrescenta.
Os idosos que participam das atividades esportivas também se preparam no Centro de Convivência para os Jogos Regionais do Idoso (Jori), representando a cidade de São Simão e trazendo muitas conquistas para a cidade.
Denúncias
Butoh explica que o prefeito extinguiu os Conselhos Municipais dos Direitos da Pessoa Idosa e da Cultura em 2025. Diante disso, registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil por apropriação de bens e bloqueio de acesso.
Também representou no Ministério Público de São Paulo (MPSP), invocando a proteção do Estatuto da Pessoa Idosa contra o que considera um ato de opressão e negligência. O diretor dos grupos Renascer e Delirivm conclui apontando que o sentimento é de abandono. Foram impedidos de entrar para utilizar o local na festa de final de ano e não conseguem continuar com ensaios para a apresentação comemorativa dos 40 anos do Grupo Renascer.
Tristeza
Aparecida Pereira tem 91 anos. É participante ativa, tanto do Grupo Renascer, quanto do Grupo Delirivm. Em ambos, está desde suas respectivas fundações. Além de atuante, é uma das mais queridas do grupo.
Ela encontrou apoio num dos momentos mais difíceis de sua vida. Estava sofrendo muito com a perda do filho.

Foi quando, através da convivência, fez muitos amigos nos dois grupos. “A gente tinha muitas atividades, eu estava voltando a ser feliz. Agora não tenho mais como conversar com minhas amigas”, lamenta.
Stella Pasquini também integra os dois grupos, desde o início de suas atividades. “Minha mãe, Guiomar foi uma das primeiras presidentes. Também fui por mais de 10 anos”, recorda.
Segundo Stella, a Prefeitura não colaborava com nada. “Sobrevivíamos com uma pequena parcela de mensalidade dos idosos. Agora trocam as chaves. Os idosos estão tristes, uns até doentes, um absurdo! Nunca houve verba municipal, é um descaso com os idosos, revoltante!”
Ela afirma que tudo o que faziam, contavam com a colaboração do diretor do Delirivm, João Butoh. Também destaca outras atividades que garantiam qualidade de vida, como exercícios físicos, bingos, trabalhos manuais, bailes, reuniões festivas e muito mais. “Muitos não precisavam mais de certos remédios. Era muito bom para a saúde. O idoso não pode ficar só”, diz com tristeza.
Grupo Renascer
O Grupo de Convivência Renascer da Terceira Idade de São Simão, conhecido como Grupo Renascer, foi fundado em 31 de julho de 1989 e, desde então, manteve-se em plena atividade, desenvolvendo ações voltadas à integração e valorização dos idosos na comunidade. Atualmente, a entidade é presidida por Victório Kiritschenko.

Em 1º de março de 2011, o Grupo de Convivência Renascer da Terceira Idade passou a ser reconhecido como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e foi decretado Entidade de Utilidade Pública Municipal por meio da Lei nº 0047/2011. Ao longo dos anos, mais de 150 idosos participaram das atividades culturais e artísticas promovidas pela entidade, incluindo oficinas de artesanato, coral, teatro e dança, além de outras ações de convivência, como jogos de mesa, participação nos Jogos Regionais do Idoso, tardes festivas e reuniões ordinárias.
O artesanato produzido pelos participantes é apresentado ao público por meio da Feira de Artesanato Simonense, que vinha sendo realizada periodicamente na sede do grupo. As integrantes desenvolveram a grife “Q. lindo” para os produtos confeccionados nas oficinas, que incluem bordados em toalhas de mesa, crochê, patchwork em camisetas e panos de prato, peças em louça e porcelana pintadas, toalhas de banho, rosto e mão com detalhes em crochê e ponto cruz, colchas de edredom em patchwork e toalhas em crochê.
Grupo Delirivm
Fundado em 1986, o grupo Delirivm Teatro de Dança desenvolve seu trabalho a partir de pesquisa e experimentação, com uma linguagem contemporânea que integra teatro e dança, explorando a síntese do movimento e a expressividade do corpo. A proposta privilegia a dimensão visual da cena, unindo forma e ação, com influências de mímica, artes plásticas, figurinos e diversas técnicas de dança, buscando atingir a sensibilidade do público por meio dos gestos, com uso mínimo da palavra.
O grupo é considerado pioneiro no Brasil ao trabalhar exclusivamente com atores idosos, tudo a partir da cidade de São Simão. O primeiro espetáculo, “Mulieribus”, recebeu quatro prêmios no Mapa Cultural Paulista Regional, na modalidade Teatro, além de participar de eventos de artes cênicas. Na modalidade Dança, o Delirivm obteve menção honrosa na fase regional do Mapa Cultural Paulista e foi convidado especial para a final realizada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Em 1998, no XXVI Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo, promovido pela Cotaesp em Santos, o grupo teve sete indicações e conquistou cinco prêmios, incluindo Melhor Trilha Sonora, Melhor Adereço, Melhor Iluminação, Melhor Direção e Prêmio Especial do Júri. Naquele ano, foi convidado para festivais internacionais no Uruguai e na Alemanha.
Ao longo de sua trajetória, o Delirivm acumulou premiações em festivais de dança, como o de Joinville e o do Triângulo, além de participações em eventos e festivais de artes cênicas no país. Em 2011, foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo para circulação de espetáculos, e, em 2012, recebeu o Prêmio Teatro em Hortolândia.
O Grupo Delirivm Teatro de Dança realizou diversas produções com reconhecimento em festivais de artes cênicas, entre elas “Mulieribvs” (1996), “Gefallene Engel” (1998), “Clair de Lune” (2002), “E toda vez que ele passa, vai levando qualquer coisa minha…” (2009), “In nomine Spiritus Sancti” (2018), “Mirada soñadora” (2021) e “Em nome da mãe, da filha e de todas as mulheres” (2024).
Sem retorno
A reportagem questionou a assessoria de imprensa da Prefeitura de São Simão a respeito das denúncias, mas até o fechamento da edição não recebeu retorno.

