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Indústria em marcha lenta

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A fotografia mais recente da indústria brasileira é inquietante: desde abril de 2025 o setor praticamente não sai do lugar. Em novembro, a produção registrou variação zero, repetindo um padrão de meses em que o avanço e o recuo se anulam. O país não está em recessão industrial, mas tampouco cresce. Está preso a uma espécie de platô que revela os limites do atual modelo de recuperação.

Os dados do IBGE mostram que, apesar de um início de ano mais vigoroso — com pico de 1,8% em março —, a indústria perdeu fôlego justamente quando os juros seguiram elevados para conter a inflação. O efeito é conhecido e documentado: crédito mais caro freia investimentos, reduz consumo de bens duráveis e encarece o capital de giro das empresas. Segundo o Banco Central, a taxa básica permaneceu em patamares restritivos ao longo de 2025, o que afeta diretamente setores industriais mais dependentes de financiamento, como máquinas, veículos, construção e bens de capital.

O paradoxo é que a economia brasileira, ao mesmo tempo, exibe sinais positivos no mercado de trabalho. Dados da PNAD Contínua do IBGE indicam desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento da massa real de rendimentos. Em tese, isso sustentaria a demanda. Mas consumo aquecido não é suficiente para puxar a indústria quando o investimento produtivo está travado. O Brasil continua comprando, mas produzindo com dificuldade.

O problema é estrutural. A indústria brasileira perdeu participação no PIB nas últimas décadas, fenômeno conhecido como desindustrialização precoce. Segundo o Ipea, o peso da indústria de transformação no PIB caiu de cerca de 25% nos anos 1980 para algo em torno de 11% atualmente. Sem uma política industrial consistente, capaz de estimular inovação, produtividade e inserção internacional, o setor fica excessivamente vulnerável aos ciclos de juros.

Além disso, a valorização cambial observada em 2025 — consequência da entrada de capitais atraídos por juros altos — barateia importações e reduz a competitividade da produção nacional. O resultado é um mercado interno abastecido por produtos estrangeiros, enquanto a indústria local opera em marcha lenta.

A estabilidade, nesse contexto, não é virtude: é sinal de estagnação disfarçada. Se o país deseja transformar crescimento do consumo em desenvolvimento econômico, precisará ir além da política monetária. Investimento público, crédito direcionado, infraestrutura, inovação e política industrial moderna não são luxos — são condições mínimas para tirar a indústria do lugar. Sem isso, o Brasil seguirá girando em torno do próprio eixo, incapaz de transformar potencial em progresso real.

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