Tribuna Ribeirão
Economia

Juros pagos sobem mais que renda

Inadimplência caiu, muito em razão de renegociações de dívidas ou postergação de consumo; apenas para s famílias, juros subiram 20,5% (Reprodução)

Famílias e empresas brasileiras pagaram, juntas, cerca de R$ 1,148 trilhão em juros ao longo do ano passado, mostra estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O número representa aumento de 17% em relação ao total de juros pagos em 2023, quando esse valor foi de R$ 981 bilhões.

O grosso desse montante saiu do orçamento de famílias (R$ 859,9 bilhões), enquanto as empresas destinaram R$ 287,9 bilhões para esse fim. Esses dados indicam que o mercado de crédito segue sendo a sustentação da demanda agregada, com crescimento de concessões e queda relevante na taxa de inadimplência.

A retração do volume de inadimplente, em conjuntura de juros alto, é positiva e provavelmente motivada pelo mercado de trabalho aquecido. Entretanto, há um aumento no comprometimento da renda dos lares e do caixa de negócios com dívidas.

Além disso, a renda brasileira fica cada vez mais concentrada no setor financeiro, o que é mais perverso, considerando que os rendimentos reais não crescem nessa mesma dimensão, criando um horizonte arriscado para a sustentabilidade do consumo e dos investimentos.

Os cálculos da FecomercioSP mostram que o volume de juros pagos pelos lares brasileiros, no ano passado, subiu 20,5% em comparação com o ano anterior, passando de R$ 713,9 bilhões para R$ 859,9 bilhões. Nesse mesmo período, a massa de renda anual das famílias avançou apenas 3,2%, ao passar de R$ 7,838 trilhões, em 2023, para R$ 8,091 trilhões, em 2024.

A consequência é que orçamentos domésticos têm ficado mais comprometidos com pagamentos de juros: em 2024, um décimo da renda familiar nacional (10,63%) estava destinado a custos dessa espécie. Para a economia, é um dado negativo, porque tira recursos do consumo ou até de investimentos, como a poupança. Em 2023, essa taxa estava em 9,11%.

A queda da inadimplência ao longo dos últimos três anos, saindo de 5,9%, em 2022, para 5,26%, em 2024, diz menos sobre a saúde do orçamento doméstico médio e mais sobre mecanismos do próprio sistema, que vão da rotatividade do crédito à renegociação das dívidas – ou, ainda, de decisões cotidianas, como a postergação de decisões de consumo.

Os dados da pesquisa apontam ainda que houve uma elevação de 2,4% na taxa de juros média mensal paga pelas famílias brasileiras, marcando 3,58% em 2024 [tabela 2]. O aumento foi até pequeno se comparado com o registrado entre 2022 e 2023 (17%).

Mesmo nesse cenário de alta nas taxas de juros, o saldo das operações de crédito avançou 7,4% no ano passado, alcançando R$ 2,22 trilhões. Isso aponta que a forte alta do consumo nos últimos anos foi financiada por meio do sistema de crédito.

Investimentos – Da mesma forma que as famílias, o volume de juros pagos pelas empresas do País também cresceu de forma vertiginosa em 2024: 7,8% em relação a 2023, atingindo R$ 287,9 bilhões. Essa expansão ocorreu sobre uma forte base de comparação, já que o montante de juros pagos havia avançado 21,9% no ano anterior em comparação com 2022.

O saldo de inadimplência caiu 16,3%, ao passar de R$ 49,2 bilhões, em 2023, para R$ 41,2 bilhões, em 2024 – e, com isso, a taxa de inadimplência recuou de 3,13% para 2,51% no mesmo período. São informações como essas que reforçam análises recentes de como o custo financeiro ainda é um dos principais entraves à retomada de investimentos privados, assim como a elevada carga tributária nacional.

O peso dos juros é ainda maior para as Pequenas e Médias Empresas (PMEs). A taxa de juros média mensal permaneceu estável (1,61%), enquanto o saldo de crédito com recursos livres cresceu 4,4% em 2024, chegando a R$ 1,64 trilhão.

Os dados do estudo da FecomercioSP revelam a importância de as políticas fiscal e monetária estarem alinhadas para que a meta de inflação seja atingida, bem como para que o Banco Central (BC) possa reduzir a taxa básica de juros, a Selic. Se não houver um ajuste fiscal, o País terá de conviver por um bom tempo com juros reais de 7% a 8%, inibindo consumo e investimentos.

Essa dinâmica é perversa, considerando que esse total de juros pagos pelas empresas e pelas famílias representou 9,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do País em 2024 (R$ 11,7 trilhões, de acordo com o IBGE). Segundo a FecomercioSP, mais do que isso, são números que mostram um sistema em alta pressão. A desaceleração da atividade econômica, como apontam as perspectivas para este segundo semestre, pode marcar um novo ciclo de inadimplência em alta.

 

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