André Luiz da Silva *
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Existem nomes que não pertencem apenas aos livros de História — pertencem à consciência de uma geração. São biografias que precisam ser divulgadas, estudadas e perpetuadas. Entre elas está a de Jesse Jackson, que faleceu em 17 de fevereiro de 2026, aos 84 anos, em sua casa, em Chicago. A causa da morte não foi divulgada, mas sabia-se que enfrentava uma doença degenerativa do sistema nervoso.
Nascido em 8 de outubro de 1941, em Greenville, no estado da Carolina do Sul, região marcada pelo segregacionismo, Jesse Jackson veio ao mundo em circunstâncias desafiadoras — filho de uma adolescente mãe solteira, cresceu em um ambiente onde a cor da pele definia limites e destinos. Mas ele nunca aceitou que o seu destino fosse imposto.
Ainda jovem, destacou-se como líder estudantil nos anos 1960 e, ordenado pastor na Igreja Batista, transformou o púlpito em tribuna por justiça. Sua atuação chamou a atenção de Martin Luther King Jr., tornando-se uma das vozes mais firmes do movimento pacifista contra a segregação racial nos Estados Unidos. Estava ao lado de King no momento de seu assassinato. E nem a brutalidade daquele tiro foi capaz de silenciá-lo.
Com compromisso inabalável com a justiça, a igualdade e os direitos humanos, Jackson ajudou a moldar um movimento global por liberdade e dignidade. Deu voz aos que não tinham voz — e ousou mais. Candidatou-se duas vezes à indicação presidencial do Partido Democrata, em 1984 e 1988. Não venceu, mas ampliou a presença das pautas raciais na agenda política nacional e quebrou a percepção de que uma pessoa negra não poderia ser um candidato viável à presidência. Muitos reconhecem que ele pavimentou o caminho para a eleição de Barack Obama, em 2008.
Sua atuação, contudo, foi muito além das urnas. Jackson fez política em nível internacional. Lutou contra o apartheid na África do Sul e tornou-se amigo de Nelson Mandela. Esteve em Cuba para dialogar com Fidel Castro, defendendo a reaproximação entre cubanos e americanos. Foi um dos primeiros líderes norte-americanos a defender a causa palestina e atuou na libertação de cidadãos americanos presos em outros países.
Em tempos nos quais parte das lideranças religiosas se distancia das causas sociais, o reverendo Jackson utilizou a fé como instrumento de transformação. Sua oratória vibrante estava a serviço da justiça social, da igualdade racial e econômica. Foi o artífice da Coalizão Arco-Íris, uma aliança ousada que reuniu negros, brancos, latinos, asiático-americanos, nativos americanos e pessoas LGBTQ+. Costumava dizer: “Nossa bandeira é vermelha, branca e azul, mas nossa nação é um arco-íris — vermelho, amarelo, marrom, preto e branco — e todos nós somos preciosos aos olhos de Deus”.
Mesmo com a saúde fragilizada nos últimos anos, manteve-se presente, apoiando o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) e reafirmando que a luta por dignidade não tem prazo de validade.
Com eloquência singular e determinação inabalável, Jesse Jackson não apenas manteve viva a própria esperança — ele a compartilhou. “Mantenham a esperança viva”, repetia. E se, desde o seu nascimento até hoje, muitas conquistas foram alcançadas pelo povo negro ao redor do mundo, ainda há um longo caminho a percorrer.
Avançaremos. Inspirados por sua vida. Movidos por seu exemplo. Fortalecidos por sua coragem. Porque a esperança, quando é verdadeira, não morre — transforma-se em legado.
* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

