Rui Flávio Chúfalo Guião *
No final do século XVII, os bandeirantes paulistas descobrem as minas gerais, chegando à região aurífera do Brasil Colônia e ali estabelecem a mais importante área econômica da província. Surgem várias cidades ( Vila Rica-Ouro Preto, Sabará, São João del Rey, Diamantina, Congonhas ) que provocam uma urbanização ímpar na nossa história.
Esta sociedade urbana passa a exigir cultura, música, ensino e ornamentação. As enormes riquezas descobertas ( que proporcionariam a Portugal ser um dos mais ricos países do mundo ) geram reflexos nas artes. Surgem nomes na música, na escultura, na pintura e na literatura.
A Igreja Católica é o grande motor destas atividades. Surgem templos que, embora modestos no exterior, contam com decoração a ouro nos seus altares, púlpitos e retábulos. Pintores nativos enchem seus tetos de pinturas sacras, onde se permitem anjos morenos, indicando uma mesclagem com o pensamento colonial. A música é essencial para as cerimônias religiosas e gera o barroco musical mineiro, mescla da forte influência portuguesa com a criatividade nativa.
Nomes como Marcos Portugal, Lobo de Mesquita, Inácio Parreiras Neves, Francisco Gomes da Rocha fazem de suas composições obras primeiras de nossa música. Na pintura sacra, surgem nomes como o de Manoel da Costa Ataíde, que trazem efeitos ilusionistas e decorativos para os painéis religiosos em seus tetos de cores claras e delicadas e o estilo rococó, com volutas, florões e arabescos.
Na literatura, estabelece-se a Escola Poética Arcadista Brasileira, com nomes que depois iriam influenciar e desencadear a Inconfidência Mineira: Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto. Mas, é na escultura que o período áureo brasileiro produz seu maior expoente, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Natural de Vila Rica-Ouro Preto, onde deve ter nascido ao redor de 1738, era filho do arquiteto e mestre de obras Manuel Francisco Lisboa.
Sua mãe, Isabel, era negra escravizada ou forra, não há consenso histórico sobre isto. Abandonado pelo pai, como bastardo, ligou-se às corporações de ofício, onde aprendeu carpintaria, escultura, entalhe e arquitetura, integrando ainda a Irmandade de São José dos Homens Pardos, importante núcleo de artesãos da sociedade mineira.
Aos quarenta anos, começou a apresentar uma doença deformante, até hoje não estabelecida: pode ter sido hanseníase, sífilis terciária ou artrite severa, doença esta que deteriorou dedos da mão e dos pés, articulações e pele,dificultando muito sua mobilidade. Apesar das grandes limitações, trabalhava amarrando formões às suas mãos, fazia-se carregado por auxiliares para galgar andaimes e ditava ou supervisionava partes difíceis de seu trabalho.
Deixou vastíssima obra escultural em pedra sabão, entalhes na madeira, além de projetos arquitetônicos e de restauração e acabamento de altares. Obras no estilo barroco tardio e rococó mineiro enriquecem coleções particulares de várias cidades daquele estado: Vila Rica-Ouro Preto, Sabará, São João del Rey, Congonhas e Mariana.
Suas obras públicas dão um toque especial nas cidades mineiras, dentre elas Os Doze Apóstolos de Congonhas do Campo, colocados na frente do Santuário do Bom Jesus, todos em pedra sabão, com expressividade dramática e forte individualidade anatômica.
E Os Passos da Paixão da mesma cidade, 66 figuras de madeira policromada que representam os últimos dias do Senhor, distribuídos por capelinhas que narram os episódios da Via Crucis. Mas, não podemos nos esquecer das igrejas de sua autoria: Nossa Senhora do Carmo e São Francisco de Assis, de Vila Rica-Ouro Preto e a do mesmo santo em São João del Rey.
Embora apresentando piora de seus sintomas, Aleijadinho não abandonou seus trabalhos e morreu em 1814, em Vila Rica- Ouro Preto, onde está enterrado na Igreja de Antônio Dias. Conhecendo sua belíssima obra, concordamos com o reconhecimento de ter sido ele o maior artista do Brasil colonial.
* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

