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O dia em que Alcides virou samba

Rodrigo Gasparini Franco *
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A televisão brasileira, em seus tempos áureos, foi palco de fenômenos de audiência e criatividade que hoje parecem pertencer a um universo paralelo de sofisticação e improviso. Entre os registros mais preciosos dessa era, destaca-se o quadro “Isto deu samba”, do lendário programa de Flávio Cavalcanti.

O formato era um desafio à genialidade: populares contavam fragmentos de suas vidas no início da transmissão e, enquanto o programa seguia seu curso, compositores de estirpe tinham a missão de transformar aqueles relatos em música. Hoje, essa joia rara pode ser facilmente reencontrada no YouTube, permitindo que novas gerações se emocionem com um momento de pura magia e espontaneidade que dificilmente se repetiria na TV contemporânea.

Em um desses episódios memoráveis, um senhor de aparência comum apresentou-se ao rigoroso Flávio Cavalcanti com uma história inusitada. Disse chamar-se Alcides e, apesar de reconhecer não ser dono de uma beleza convencional, ostentava com orgulho o apelido de “Quindim de Mulher”. Com uma autoconfiança desconcertante, ele arrematou que não entendia o porquê, mas toda mulher que olhava para ele acabava “gamando”, fossem elas loiras, morenas ou “furta-cor”.

O relato, carregado de uma malandragem ingênua e tipicamente brasileira, foi o combustível perfeito para o que viria a seguir, unindo no mesmo palco dois gigantes em estágios opostos de suas trajetórias.

De um lado, estava o já consagrado Lupicínio Rodrigues, o mestre gaúcho da dor-de-cotovelo e das crônicas de costumes, que imediatamente começou a lapidar os versos do que viria a ser o samba “Quindim de Mulher (Meu Nome é Alcides)”.

Do outro, um jovem em início de carreira, dono de uma voz aveludada e técnica refinada: Emílio Santiago. O encontro dessas duas gerações sob a pressão do cronômetro televisivo resultou em uma performance histórica. Lupicínio, agindo como um “Nelson Rodrigues da composição”, capturou a essência do personagem Alcides com a precisão de um cronista social, enquanto Emílio, o futuro “intérprete de ouro”, defendeu a obra recém-criada com uma maturidade vocal que deixou o júri e o público em transe.

Assistir a esse registro hoje é testemunhar a gênese de uma elegância que transformou o samba. Emílio Santiago não apenas cantou; ele deu cor, classe e uma dignidade orquestral à batida cadenciada, provando que o samba de calçada poderia habitar os salões mais nobres.

A composição de Lupicínio, por sua vez, revelou-se atemporal ao transformar a jactância de um homem comum em uma obra de arte sobre o ego e a conquista. É um exemplo clássico da habilidade de “Lupi” em ler a alma do povo e traduzi-la em melodia, elevando o cotidiano ao status de mito.

A nostalgia que esse vídeo desperta no YouTube não é apenas pelo passado, mas pela constatação de uma lacuna no cenário atual. É impressionante notar como, naquela época, a televisão servia de vitrine para mestres na arte do “fazer bem feito”. Não temos hoje, com a mesma frequência, compositores com a verve de Lupicínio ou intérpretes com a estatura de “crooner” de Emílio Santiago.

O quadro “Isto deu samba” não era apenas entretenimento; era um exercício de alta cultura popular em tempo real. Revisitá-lo é um lembrete necessário de que a música brasileira, quando encontra intérpretes e autores dessa magnitude, atinge um patamar de excelência que o tempo não é capaz de apagar.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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