As desigualdades socioeconômicas continuam dificultando o acesso à educação infantil no Brasil. Essa é uma das conclusões do estudo inédito “O desafio da equidade no acesso à educação infantil – uma análise do CadÚnico e do Censo Escolar”, realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
A Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, criada em 1965, tem como foco a primeira infância, com base no entendimento de que as experiências vividas no início da vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança e da sociedade.

O estudo cruzou informações do Cadastro Único (CadÚnico) com o Censo Escolar e revelou que apenas 30% do total de 10 milhões de crianças de baixa renda na primeira infância inscritas no CadÚnico estavam matriculadas em creches em dezembro de 2023. Já na pré-escola, etapa obrigatória da educação básica, apenas 72,5% das crianças de 4 e 5 anos pertencentes a famílias de baixa renda estavam matriculadas.
O CadÚnico é um instrumento coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social que tem como objetivo identificar e caracterizar famílias brasileiras de baixa renda, sendo pré-requisito para a participação em mais de 30 programas sociais. Ele reúne informações socioeconômicas como escolaridade, renda, condições de moradia e matrícula escolar das crianças, sendo uma ferramenta essencial para a formulação de políticas públicas.
Já o Censo Escolar é o levantamento estatístico oficial da educação básica no Brasil, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Ele reúne dados sobre matrículas, infraestrutura escolar, alunos e docentes das redes pública e privada.
Desigualdade por regiões
Segundo o estudo, a desigualdade de acesso à educação infantil entre famílias de baixa renda é mais acentuada na Região Norte, onde a taxa de matrícula em creches foi de 16,4% em 2023. Em seguida aparecem o Centro-Oeste (25%) e o Nordeste (28,7%). Apenas o Sudeste (37,6%) e o Sul (33,2%) registraram taxas superiores à média nacional de 30% para a população inscrita no CadÚnico.
As diferenças também se refletem na pré-escola, com taxas de matrícula variando entre 68% e 78% nas regiões do país, sendo novamente Norte e Nordeste os piores indicadores.
O levantamento aponta ainda que municípios menores e com menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) enfrentam mais dificuldades para garantir vagas, seja por restrições financeiras ou falta de capacidade técnica, o que reforça a necessidade de políticas públicas que promovam maior equilíbrio na oferta de educação infantil.
Entre as famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico, crianças brancas têm 4% mais chance de estar na creche e quase 7% mais chances de frequentar a pré-escola do que crianças pretas, pardas e indígenas. O estudo mostra também que meninas têm menor probabilidade de frequentar creche (-4,05%), enquanto crianças com deficiência têm 13,44% menos chance de estar matriculadas na pré-escola.
Realidade em Ribeirão Preto
Dados da Secretaria Municipal de Educação revelam que, no ano passado, 1.561 crianças ficaram na fila de espera por uma vaga na Educação Infantil do município. Desse total, 1.371 tinham entre 0 e 2 anos, faixa etária correspondente ao atendimento em creches.

Para o ano letivo atual, o cadastro realizado entre agosto e setembro de 2025 recebeu 3.242 pedidos. Com a reabertura do sistema nesta semana para quem perdeu o prazo inicial, cerca de 1.400 novos pedidos já foram registrados.
De acordo com a Secretaria, os bairros com maior fila de espera são Jardim Cristo Redentor, Parque Ribeirão e Jardim Progresso, na Zona Oeste; Parque São Sebastião, Jardim Helena e Manoel Penna, na Zona Leste; e Jardim Aeroporto, na Zona Norte.
“Devido ao crescimento populacional orgânico da cidade e à expansão habitacional em determinadas localidades, haverá novas construções, ampliações e manutenções de unidades escolares, visando o atendimento da demanda reprimida e futura”, informou a Secretaria.
A pasta afirma que a principal estratégia para absorver a fila de espera é a ampliação da rede, com previsão de criação de mais de 7 mil novas vagas até 2030 — quase 5 mil em Centros de Educação Infantil (CEIs), cerca de 1.500 em Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) e 500 em Escolas Municipais de Ensino Fundamental (Emefs).
Dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que Ribeirão Preto tem 23.256 pessoas morando em favelas e comunidades, distribuídas em 7.718 domicílios.

