Antonio Carlos A. Gama *
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Todo homem pode ser impresso, alguns o são, mas poucos são encadernados. Já agora, alguns deles são livros de bolso. Basta compor um romance, umas memórias, alguns contos, ou talvez uma centena de poemas.
Todos se julgam habilitados, se têm algumas letras. Escrever é sentar-se diante da mesa, debruçar-se sobre a folha de papel, e gatafunhar com o lápis, ou com a caneta. De uns tempos para cá, abolida a máquina de escrever, posta-se diante da tela do microcomputador, e vai-se batendo no teclado.
Uma palavra, meia dúzia de palavras, uma centena delas, emendadas umas às outras. Agarra-se um adjetivo e prende-se esta flor artificial a um substantivo. Arrumam-se os verbos, os advérbios, os pronomes, e ousa-se alguma metáfora. O livro está pronto, e não é impossível encontrar um editor complacente, ou pagar-lhe, do próprio bolso a impressão do livro.
Manuel Bandeira, Drummond e outros pagaram as edições dos seus primeiros livros, quinhentos exemplares, distribuídos entre os amigos. Livros que não chegaram às vitrinas ou aos balcões das livrarias, e hoje são preciosos.
Escrever é uma vaidade vicejante. Atualmente, escrevem-se para os blogs ou para as redes sociais. É praticamente de graça. Temos muito para dizer aos outros, quando não dizemos coisa nenhuma. E eles também, para nós.
O livro está se extinguindo, mas não aqueles que os escrevem. Minha vida dá um romance, dizem todos. Entre o fogão, a frigideira, o tanque de lavar roupas, o trabalho do dia a dia, é botar as páginas penduradas no varal, para secar ao sol. Depois é reuni-las, para as passar a limpo, com o ferro elétrico.
Na literatura, todos são chamados, mas só uns poucos escolhidos. Todos os demais vão (quando vão), para os rodapés das histórias de literatura.São os escritores de rodapés, ao nível do piso do soalho, nas frestas, onde vivem as baratas.
E também muitos leitores são leitores de sovaco: trazem sempre um livro no sovaco, e não o leem jamais. Na faculdade de Direito, tive um professor assim, era um bom homem, mas nós o chamávamos de “Sovaco Ilustrado”.
Todos os livros são frustrações e há quem mais tarde os compre um a um para os queimar. São pecados dos quais nos arrependemos.
Quantos livros se imprimem entre nós e são lançados à venda, a cada ano? Milhares. Os catálogos regurgitam deles, e há quem seja apenas leitor de catálogos e de títulos. São os leitores de “ouvir dizer”.
A loucura e as paixões, no homem, assumem várias formas. Loucura mansa e loucura furiosa. E há aqueles que matam as mulheres amadas, ou vivem delas e com elas.
Os livros, às vezes, nos despertam um tédio infinito. Porque tudo já foi dito e está sendo repetido.
Tenho o hábito de recolher em pastas recortes de jornais e revistas. Uma hora ou outra, vasculho-os. Todos os acontecimentos que foram sensacionais passaram e não deixaram nenhuma lembrança. Os ladrões roubaram, o assassinos mataram, houve terremotos e desastres espantosos. Não ficou marca nenhuma deles. Com o homicídio ou o roubo de hoje acontecerá a mesma coisa.
Machado de Assis escrevia numa das suas crônicas que bons eram os defuntos que não nos furtam os relógios. Nós é que ficamos com os relógios deles, para marcarem as mesmas horas que lhes marcaram.
* Promotor de Justiça, aposentado, professor de Direito, advogado e escritor

