José Eugenio Kaça *
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O modelo da educação básica pública no Brasil sempre foi segregador, pois havia nas escolas públicas uma separação de acordo com a classe social, e esse modelo, que se espelhava no modelo jesuítico, não permitia que as classes subalternas oriundas da herança escravagista ocupassem os mesmos espaços das “elites” “brancas”, que se julgavam uma raça superior, pois tinham ascendência europeia, e isso fazia a diferença.
No modelo jesuítico, a educação elementar era destinada aos filhos dos colonos, enquanto para os filhos das classe dominante, o ensino era aprofundado, preparando-os para manter tudo como sempre foi; a Casa grande e a Senzala. O Estado de São Paulo, um estado herdeiro dos Bandeirantes, escolheu o modelo da exclusão social para a sua educação básica pública.
Décadas se passaram e o mito do Sísifo se mantém como um carma na educação básica pública paulista. Sísifo, por delatar Zeus, e enganar a a morte por duas vezes, foi condenado a rolar uma pedra gigante montanha acima, mas quando estava perto do cume, a pedra rolava de volta para a base, e o esforço repetido por toda a eternidade – é o que acontece com a educação básica pública do Estado de São Paulo.
O Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, mostrou que uma educação básica pública e de qualidade para todos era possível, mas a força do atraso foi maior. A educação básica pública sempre foi marcada pelas exclusão, a repetência e a evasão. Fala-se muito nos dias de hoje da violência dos alunos no ambiente escolar, entretanto, essa violência sempre existiu nesta ambiente; só que era de cima pra baixo.
O analfabetismo é uma mácula que resiste e persiste ao longo do tempo.Na primeira metade do século 20, quase setenta por cento da população era analfabeta, melhoramos, mas em pleno século 21 ainda não se conseguiu erradicar está mácula, pois 5,3% da população continuam analfabetas, e para piorar o analfabetismo funcional em 2025 está na casa dos 30% – que tragédia.
As pedagogias progressistas são ignoradas, e pedagogias alienígenas, que não têm nada a ver com a nossa gente são empurradas goela a baixo.Mudam as nomenclaturas da educação básica, esperando que por osmose tudo se transforme, e assim a educação básica de um salto de qualidade, entretanto, tudo continua na mesma.
No passado, a humilhação dos educandos era vista como algo positivo, pois moldava o caráter, os alunos eram separados pelo nível de conhecimentos, tinha a sala dos adiantados e a sala dos atrasados; pura segregação. Não havia educação infantil, para a população pobre.
A maioria chegava ao primeiro ano do ensino primário sem conhecer o alfabeto, e sem noções de matemática, ai começava a segregação. No primário foram criados dois primeiros anos, 1º ano A e 1º ano B, aqueles alunos que foram alfabetizados em casa, aprendendo as primeiras letras e noções matemáticas iam para o 1º ano A, os que chegavam sem qualquer habilidade iam para o 1º ano B, e como sempre acontece, o 1º ano B era negligenciado,e passava a ser o foco da repetência. E o resultado desta política foi o abandono de grande parte dos alunos no 3º ano; essa política foi o embrião da evasão escolar.
Os projetos exitosos de inclusão que acontecem na educação básica pública pelo Brasil, não interessam aos governantes de plantão, que prometem melhorar à educação básica, mas usam ferramentas para destruí-la. O governador de São Paulo, junto com o seu secretário de Educação querem reviver a velha forma de segregação entre alunos. A nomenclatura é a melhor forma de enganar a população. O Projeto Voar, na realidade não fazem os estudantes voarem.
O Projeto vai separar os alunos por nível de aprendizagem; vão criar classes adiantadas e classes atrasadas, indo de encontro as políticas de inclusão. Os resultados danosos que este tipo de política causou no passado não é levado em conta. Não se faz uma educação básica pública de qualidade humilhando e desprezando os educandos, mas o que esperar de um governador que afirma que diploma não tem importância, isso para os filhos dos pobres, pois seus filhos estudam em escolas que cobram mais de dez mil a mensalidade.
Com este projeto, a evasão escolar, que já é grande, principalmente no Ensino Médio vai disparar. O novo Plano Nacional de Educação, que está tramitando no Congresso Nacional tem como principal foco combater a evasão escolar. Enquanto isso o Estado mais rico da federação trabalha para manter em alta esta chaga que persegue a educação básica pública há décadas.
* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

