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O mito do macho alfa e outras mentiras que custam vidas

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
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Um dos casos mais comentados do mês da mulher foi a morte de uma soldada da Polícia Militar do Estado de São Paulo, inicialmente tratada como suicídio, mas posteriormente cercada por indícios de feminicídio e possível fraude processual. O episódio convida a refletir não apenas sobre o crime em si, mas também sobre como investigações e narrativas públicas podem variar conforme o perfil social, institucional e econômico dos envolvidos.

As mensagens atribuídas ao casal revelam uma visão profundamente hierarquizada das relações de gênero, na qual a mulher é reduzida à submissão e ao espaço doméstico. Esse tipo de discurso não é isolado: ele expressa padrões culturais ainda presentes na sociedade brasileira, sustentados por interpretações distorcidas de tradições religiosas, conceitos pseudocientíficos e estruturas históricas de desigualdade.

No campo religioso, por exemplo, trechos da Carta aos Efésios frequentemente são citados de forma seletiva para justificar a submissão feminina, desconsiderando que o próprio texto também propõe relações baseadas em amor, respeito e responsabilidade mútua. Trata-se de um debate complexo, com diferentes correntes interpretativas, mas que não pode ser instrumentalizado para legitimar violência ou dominação.

Da mesma forma, a ideia popular de “macho alfa” é frequentemente utilizada para naturalizar comportamentos autoritários. No entanto, essa noção deriva de leituras simplificadas de estudos com animais e foi amplamente questionada por pesquisadores contemporâneos. Em primatas, por exemplo, lideranças mais estáveis tendem a se basear em cooperação, empatia e construção de alianças, e não apenas na imposição pela força.

A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado, mas estrutural, alimentado por desigualdades de gênero, tolerância social à agressão e falhas institucionais. Medidas como o monitoramento eletrônico de agressores, recentemente aprovado pelo Senado, são importantes, mas insuficientes se não vierem acompanhadas de políticas integradas de prevenção, educação e responsabilização efetiva.

Enquanto o processo de reeducação e conscientização da sociedade parece lento, torna-se necessário que as mulheres tenham a determinação da “Maria da Vila Matilde”, da música composta por Douglas Germano e eternizada por Elza Soares. “Eu vou ligar pro 180. Vou entregar teu nome e explicar meu endereço. Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.

Que essa voz não ecoe sozinha, mas se transforme em coro coletivo — firme, consciente e protegido. Que cada porta fechada à violência seja também uma janela aberta à rede de apoio: amigas, vizinhas, escolas, serviços públicos e canais como o Ligue 180, que acolhem, orientam e salvam vidas. É preciso transformar coragem em política cotidiana: denunciar, acolher sem julgamento, educar meninos e homens para relações igualitárias e fortalecer mecanismos de proteção. Porque quando uma mulher rompe o silêncio, não é apenas sua história que muda — é a sociedade que começa, ainda que lentamente, a reescrever o futuro com menos medo e mais dignidade.

Enfrentar o feminicídio exige mais do que indignação pontual: requer revisão crítica de valores culturais, fortalecimento das instituições e compromisso coletivo com a dignidade humana. Em uma sociedade democrática, relações afetivas não podem ser regidas por dominação, mas por igualdade, respeito e autonomia. Onde há controle, medo ou violência, não há amor — há violação de direitos.

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

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