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“O mundo não é, está sendo”

Foto: Arquivo

José Eugenio Kaça *
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O ser humano traz a esperança em seu âmago, e sempre após alguma tragédia que cause milhões de mortes, essa esperança adormecida se aguça, e um mar de otimismo toma conta da maioria dos seres humanos. A pandemia do Covid-19, que causou milhões de mortes pelo mundo e promoveu o isolamento social, obrigando pessoas a ficarem confinadas em suas casas, convivendo vinte e quatro horas por dia, e, para alguns, essa convivência no sofrimento iria transformar as pessoas, e depois da pandemia um novo ser humano surgiria, e teríamos um mundo melhor — ledo engano.

A convivência diuturna de toda a família, que parecia algo saudável, aos poucos foi se transformando em conflito, e muitos casais que eram exemplos de família feliz não suportaram viver se esbarrando vinte e quatro horas por dia pela casa, e o resultado que a princípio seria elevar o ser humano acabou com o divórcio de muitos casais. A esperança do surgimento de um novo mundo, onde a solidariedade fosse a marca de um novo ser humano, se desfez no espaço, e o velho mundo das atrocidades surgiu com força no horizonte.

A pandemia se foi, mas as sequelas deixadas criaram uma nova epidemia. Uma epidemia diferente, que não ocupa os leitos hospitalares, que não exige o isolamento social; entretanto, pode acabar com a vida terrena. O chamado mundo ocidental descarrilhou, e aquele falso orgulho de ser exemplo moral para o restante do mundo se desfez no ar, e o velho mundo ressurgiu com força total. Fala-se muito no conservadorismo, mas, na realidade, não é o conservadorismo tradicional, e sim um radicalismo que não leva em consideração a vida humana, jogando o ser humano para o final da fila. Este vírus, surgido após a pandemia, sempre esteve por aí; não é novidade, apenas estava adormecido.

A nova pandemia ataca a área do cérebro responsável pela regulação das emoções e do comportamento social (córtex pré-frontal), mudando completamente o entendimento do sentido da vida. No Brasil, esta pandemia está atingindo principalmente pessoas ligadas com as ideias da extrema direita, que confundem radicalismo com conservadorismo, e, neste contexto, a caixa de Pandora foi aberta. A palavra “patriota” é mel na boca da extrema direita; porém, o significado da palavra patriota não é entregar o país para o domínio do “Império”. Talvez seja o efeito do vírus, mas também pode ser a síndrome do “lambe-botas”, que essa gente carrega em seu âmago, ou mau-caratismo mesmo; é gente que trama o tempo todo contra o povo brasileiro.

A invasão e o sequestro do presidente da Venezuela pelo Império do Norte levaram a extrema direita brasileira ao delírio, como se fosse uma atitude democrática, e correram para as redes sociais pedindo para que o “Império” sequestrasse o nosso presidente também — é uma alta traição, crime de lesa-pátria. Entretanto, na visão deturpada dessa gente, “são patriotas”. A coisa está ficando fora de controle. No cotidiano, o azul não é mais azul, e um carro que passa pela rua não é carro, e sim uma moto; a coisa está ficando feia. Temos o antídoto, mas seu efeito ainda vai demorar.

A educação libertadora e solidária é o único caminho que pode nos tirar deste abismo. Não há vida sem correção, sem retificação; o mundo não é, está sendo. (Paulo Freire).

 

 

* Pedagogo, líder comunitário e ex-conselheiro da Educação

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