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O que a violência contra animais revela sobre nós

Foto: Arquivo

André Luiz da Silva *
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Cresci ouvindo o antigo provérbio de que “cachorro que tem dois donos morre de fome”. A experiência recente, porém, desmonta essa máxima desde o surgimento do chamado cão comunitário: o animal que pertence à vizinhança inteira e cria vínculos com moradores e comerciantes, recebendo cuidados coletivos de vacinação, castração, abrigo e alimentação.

O caso do cão coletivo “Orelha”, cruelmente atacado por um grupo de jovens da elite de Florianópolis (SC), expôs essa nova realidade e chocou o país. A ampla repercussão revelou algo mais grave: o crescimento de atos de violência extrema praticados por pessoas, inclusive de classes médias e altas, muitas vezes estimulados pela brutalidade digital, pela ausência de supervisão familiar e pela sensação perigosa de impunidade.

Depois disso, outras ocorrências semelhantes se espalharam pelas redes sociais: o policial militar que atirou em “Negão”, cão comunitário de Campo Bom (RS); em Toledo, no Paraná, o cão “Abacate” morto por disparo de arma de fogo; em Vilhena (RO), a cadela diagnosticada com câncer, arrastada por quilômetros com uma corda no pescoço, resgatada e chamada de Vitória. Em Igarapava, interior paulista, o desfecho foi ainda mais devastador: uma cachorra grávida, amarrada e arrastada por sete quilômetros. Morreram ela e os dez filhotes. Não é excesso de sensibilidade — é barbárie objetiva.

Nesta mesma semana, vi dentro de casa o contraste absoluto. Minha esposa acompanhava com cuidado redobrado a nossa gata “Nina”, já idosa, exigindo atenção especial e frequentes idas à veterinária. O modo como a segurava — com afeto e cautela — lembrava o trato dedicado aos seus alunos do Centro de Educação Infantil. Sim, há pessoas que tratam seus animais, hoje chamados Pets, como membros da família. É um amor concreto, que aceita sacrifícios e renúncias para garantir saúde e bem-estar.

Mas é impossível ignorar a contradição: se cresce o amor pelos animais, cresce também o ódio. Especialistas em luto pet e comportamento humano alertam que a agressão contra animais pode revelar falhas na regulação emocional, na empatia e no reconhecimento de limites éticos. A psicologia forense e a criminologia descrevem a Teoria do Elo (The Link), que aponta correlação entre maus-tratos a animais e violência contra pessoas. Não é regra absoluta, mas é indicador recorrente e precoce de transtornos de personalidade e possível prenúncio de violência futura.

Diante da comoção, não basta indignação passageira. Todo caso precisa ser investigado, processado, julgado e punido com rigor. No episódio do “Orelha”, a tentativa de familiares de proteger os agressores gerou revolta adicional — compreensível, mas perigosa — pois descrentes da justiça, alguns passaram a defender vingança privada. Quando a fúria substitui a lei, a diferença entre criminosos e justiceiros começa a desaparecer.

Para evitar novos horrores, o caminho é educação e conscientização responsável, inclusive sobre o que significa ser tutor. Antes de adotar, é indispensável ter condições financeiras para alimentação e cuidados veterinários, tempo para passeios e interação, além de espaço seguro e limpo. Pets não são objetos afetivos descartáveis; possuem necessidades amplas e contínuas, muito próximas às de um ser humano dependente.

A Constituição Federal, a Lei de Crimes Ambientais e a Lei Sansão proíbem abandono, acorrentamento, agressões e mutilações, prevendo punição para maus-tratos contra cães e gatos. Essas normas não podem ser enfeites jurídicos. Precisam ser aplicadas com firmeza, sem distinção de classe social. Se queremos uma sociedade verdadeiramente civilizada, a defesa dos animais não é pauta secundária — é teste de caráter coletivo. Denuncie, cobre, eduque, intervenha. A indiferença também maltrata.

* Servidor municipal, advogado, escritor e radialista

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