Antonio Carlos A. Gama
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Ela me telefonou que fosse com urgência. Estava em pânico.
Peguei o carro, pisei no acelerador, violei todos os sinais vermelhos dos semáforos na madrugada da cidade, e em dez minutos estava à porta do palacete.
Ela me recebeu de camisola e, com um dedo sobre os lábios, recomendou-me que não fizesse barulho.
Atravessamos uma sala às escuras e subimos uma escada, ela à minha frente. Apontou-me uma porta fechada. Com muito cuidado, girei a maçaneta e a porta se abriu. Lá dentro também estava escuro.
Passei o facho da lanterna ao redor, e vi-o, com a cara torcida sobre o sofá, e o corpo caído torto sobre o tapete. Aproximei-me e apalpei-o. Estava morto. “Há alguém mais na casa?” perguntei-lhe. “Não, não há, dispensamos os criados, porque íamos viajar.”
Ora, se não havia mais ninguém na casa, e ele estava morto, por que as luzes apagadas? “Porque eu não quero ver a cara dele”, ela explicou. “E que vamos fazer agora?”
“Como aconteceu isso?”, eu quis saber.
“Ele me agrediu, e bati-lhe na cabeça com um ferro da lareira.”
Legítima defesa, refleti. O diabo era a Polícia acreditar nisso. Enrolei-o no tapete e recomendei a ela que limpasse o sangue, que era pouco. Carreguei-o enrolado no tapete, abri o porta-malas do carro e joguei-o dentro.
Desta vez, dirigi cautelosamente até a ribanceira do rio e joguei-o na água, deixando o corpo rolar pelo tapete. Tornei a botar o tapete no porta-malas e retornei para o palacete.
Quem me abriu a porta, desta vez, não foi ela, mas ele mesmo. Quase caí de costas. Como? Como é que ele estava ali, e não nas águas do rio, e voltara antes de mim?
“Que é que se passa? “, ele me perguntou. Você está pálido e assustado. Vou buscar-lhe uma bebida.”
Enquanto ele ia buscar, ela me disse:
“Não foi ele que eu matei. Foi o outro. Eu pensei que era ele, as luzes estavam apagadas.”
Então havia outro?
Ele retornou com o cálice de conhaque, que bebi de uma só virada.
“Que é que você veio fazer aqui, a esta hora?”, ele indagou, quando me viu refeito.
“Recebi um telefonema de alguém dizendo-me que viesse para cá, com urgência.”
“Foi um trote”, ela explicou.
“Sim, deve ter sido um trote”, ele concordou.
E ambos riram.
“Se está tudo bem, vou embora”, despedi-me.
“Vá em paz”, ele murmurou. “E não acredite em todos os telefonemas.”
*Promotor de Justiça, aposentado, Advogado, Professor de Direito, Escritor

