Uma pesquisa divulgada pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil) aponta que jovens brasileiras, na faixa etária de 15 a 35 anos, demonstram posicionamentos mais progressistas em comparação aos homens da mesma idade, que se mostram mais conservadores.
Segundo os dados, 65% das mulheres destacaram a importância de políticas públicas voltadas para saúde, educação e combate à pobreza, enquanto os homens apresentaram maior tendência ao conservadorismo, especialmente em temas como aborto e valores sociais.
Entre as mulheres, houve uma inclinação quatro pontos percentuais maior à esquerda do espectro político em relação aos homens. Apesar das diferenças, ambos os grupos concordam sobre a necessidade de políticas públicas e de redução das desigualdades no país.
No total, 38% dos entrevistados se declararam de direita, 44% de centro e 18% de esquerda. O diretor de Projetos da FES Brasil, Willian Habermann, ressalta que, embora haja um posicionamento mais à direita, muitos jovens apoiam valores progressistas, como igualdade de direitos e o papel do Estado.
Entre todos os jovens, 66% apoiam a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero, 58% aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 59% concordam com o acesso de pessoas transgênero a cuidados de saúde relacionados à afirmação de gênero. Em relação ao aborto, 33% apoiam a legalização, 51% são contrários e 16% não souberam responder.
A maioria considera a democracia a melhor forma de governo. No entanto, 49% acreditam que a democracia pode funcionar sem partidos políticos. Além disso, 58% preferem um líder forte a partidos ou instituições, enquanto 29% preferem um governo autoritário.
A pesquisa também aponta uma crise de confiança nas instituições tradicionais: 57% não confiam nos partidos, 45% desconfiam da Presidência da República e 42% do Legislativo. Universidades, igrejas e meios de comunicação são apontados como instituições mais confiáveis. A desconfiança é maior entre jovens negros em relação à polícia e ao sistema judiciário, refletindo desigualdades raciais e o impacto da violência institucional.
Prioridades dos jovens
Os temas considerados prioritários são educação e saúde (86%), proteção ambiental (85%), autonomia de povos indígenas e comunidades étnicas (75%) e regulamentação de plataformas digitais (71%). Sessenta por cento defendem um imposto adicional para os mais ricos, visando à redistribuição de renda.
Apesar de 68% relatarem satisfação com a vida e 70% com as relações familiares, predomina a insatisfação com a economia e a situação do país. Entre jovens das classes mais baixas, 45% estão desempregados ou em busca de oportunidades, e apenas 29% dos jovens pretos e 32% dos pardos têm trabalho estável, contra 45% dos brancos. Mesmo assim, 88% dos entrevistados mantêm expectativas otimistas para os próximos cinco anos.
Como eles se informam
O acesso às informações ocorre principalmente pelas redes sociais, que são a fonte preferida para 60% dos jovens diariamente. Outros 33% utilizam as redes algumas vezes por semana. Plataformas como YouTube e WhatsApp também têm destaque, enquanto apenas 2% recorrem a jornais impressos.
A pesquisa não identificou se os jovens checam a veracidade das informações encontradas nas redes. Segundo a FES Brasil, a influência de influenciadores digitais foi menor do que o esperado.

O estudo, intitulado “Juventudes: Um Desafio Pendente”, entrevistou 2.024 jovens por meio de amostragem online, com uso de painéis web. O levantamento faz parte de um estudo conduzido nos 14 países onde a FES atua.
Em geral, jovens latino-americanos defendem a democracia, o papel do Estado na garantia de direitos sociais e o voto como ferramenta de transformação. Na região, a maioria se posiciona politicamente ao centro, seguida pela direita e, por último, pela esquerda.
Habermann exemplifica que predominam posições progressistas quanto à igualdade e aos direitos: 66% apoiam a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero, 58% aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 59% concordam que pessoas transgênero devem ter acesso a cuidados de saúde relacionados à afirmação de gênero. Já em relação ao aborto, prevalece a posição mais conservadora: apenas 33% apoiam a legalização, enquanto 51% são contrários e 16% não souberam responder.
“No que tange a valores, especialmente os relacionados a gênero e ao papel do Estado, os dados mostram que a juventude talvez esteja entre o centro e a direita, mas reconhece o papel do Estado como fundamental para a sociedade brasileira”, afirmou.
Crise de confiança
A maioria da juventude (66%) considera a democracia a melhor forma de governo, embora 49% acreditem que uma democracia pode funcionar sem partidos, o que sinaliza tensões entre valores democráticos e autoritários.
Já 58% dos entrevistados afirmaram preferir um líder forte, que resolva melhor os problemas, em vez de partidos ou instituições. Em contrapartida, apenas 29% disseram preferir um governo autoritário. Para Habermann, o fato de esses jovens não reconhecerem os partidos como parte da democratização é um problema.
O levantamento reforça a existência de uma crise de confiança nas instituições políticas tradicionais: 57% não confiam nos partidos, 45% desconfiam da Presidência da República e 42% do Legislativo. Em contrapartida, universidades, igrejas e meios de comunicação aparecem como as instituições mais confiáveis.
Estudo revela choque político entre idosos e jovens
Um levantamento da consultoria Pesquisa Atlas traçou um retrato das diferenças entre gerações no país, com destaque para ideologia política, expectativas econômicas, percepção sobre redes sociais e prioridades eleitorais.
O estudo ouviu 5.510 pessoas entre 22 e 27 de novembro, com margem de erro de 1 ponto percentual, e apresentou variações marcantes entre Baby Boomers, Geração X, Millennials e Geração Z.
Baby Boomers são os nascidos após a Segunda Guerra Mundial, entre meados dos anos 1940 e 1960. A Geração X abrange quem nasceu entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1980. Os Millennials (ou Geração Y) incluem os nascidos do início dos anos 1980 até meados dos anos 1990 e 2000. A Geração Z corresponde aos nascidos a partir do fim dos anos 1990, já imersos no ambiente digital.
No campo ideológico, o levantamento aponta que 57% dos Baby Boomers e 52% da Geração X se consideram de esquerda ou centro-esquerda. Entre os mais jovens, o movimento é oposto: 52% da Geração Z e 51% dos Millennials se identificam como de direita ou centro-direita.
No conjunto da população, o resultado fica dividido: 40% se declaram de esquerda ou centro-esquerda, enquanto 42% se dizem de direita ou centro-direita.
As perspectivas sobre mobilidade econômica também variam. Segundo a pesquisa, 62% da Geração X acreditam que terão mais oportunidades econômicas do que os pais, sendo o grupo mais otimista. Entre Baby Boomers e Millennials, prevalece o pessimismo: 45% e 43%, respectivamente, acreditam que terão menos oportunidades. No total da população, 48% esperam mais oportunidades, contra 39% que projetam menos.
O levantamento reuniu entrevistados de todas as regiões do país e mostra um Brasil dividido tanto na visão política quanto na confiança no futuro econômico, mas convergente quanto à importância da economia nas próximas escolhas eleitorais.
Desigualdade no trabalho e na renda ajuda a explicar o olhar crítico da juventude
Os dados de pesquisas oficiais do governo federal ajudam a contextualizar o posicionamento dos jovens brasileiros revelado pelo estudo da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung (FES Brasil). Indicadores do IBGE e do Ministério do Trabalho mostram que a faixa etária entre 15 e 35 anos enfrenta obstáculos mais intensos no mercado de trabalho, no acesso à renda e à estabilidade, fatores que influenciam diretamente a percepção sobre o papel do Estado, a política e as instituições.
Levantamentos da PNAD Contínua, do IBGE, apontam que os jovens estão mais expostos ao desemprego, à informalidade e à rotatividade profissional do que adultos de faixas etárias mais altas. A entrada no mercado de trabalho ocorre, em muitos casos, por meio de ocupações temporárias, sem garantias trabalhistas ou com rendimentos inferiores à média nacional.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) também indicam que, embora os jovens representem parcela relevante das contratações formais, eles concentram grande parte dos desligamentos. O cenário reflete uma dinâmica de instabilidade, com vínculos curtos e dificuldade de progressão profissional.
A desigualdade racial e social agrava esse quadro. Estatísticas oficiais mostram que jovens pretos e pardos têm, em média, menos acesso a empregos formais e rendimentos mais baixos do que jovens brancos, além de maior exposição ao desemprego. Essa disparidade está associada ao histórico de exclusão educacional e às diferenças de oportunidades no mercado de trabalho.
Na área da educação, o Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, revela que o acesso à universidade ainda é fortemente influenciado pela renda familiar e pela origem social. Embora tenha havido expansão do ensino superior nas últimas décadas, a evasão e a dificuldade de permanência atingem principalmente estudantes de baixa renda, o que impacta a qualificação profissional e as perspectivas futuras.
Especialistas em políticas públicas apontam que esse conjunto de fatores — emprego instável, renda limitada e acesso desigual à educação — contribui para a visão crítica da juventude em relação às instituições e para a valorização de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades, como indicou a pesquisa da FES Brasil.
Ao mesmo tempo, estudos do Ipea e de órgãos ligados ao governo federal mostram que os jovens continuam atribuindo importância à democracia, aos direitos sociais e à presença do Estado em áreas como saúde, educação e proteção social. O desafio, segundo analistas, está em transformar essa percepção em políticas capazes de responder às demandas de uma geração que viveu crises econômicas, mudanças no mundo do trabalho e forte transformação tecnológica.
Nesse contexto, o comportamento político e social da juventude brasileira aparece menos como uma contradição e mais como reflexo direto de suas condições materiais de vida: um grupo mais escolarizado do que gerações anteriores, mas ainda submetido a insegurança econômica, desigualdades e incertezas quanto ao futuro.

