Conceição Lima *
Outro dia uma leitora fez um comentário jocoso, a propósito de um artigo meu publicado neste jornal em 05/03/2026, aventando num muxoxo: “Poderia [a IA] dar à luz no lugar das mulheres…” Então, veio-me a “iluminação”! Taí… Eis um ótimo tema a levantar neste MÊS INTERNACIONAL DAS MULHERES… Então, tratei de esmiuçar a questão.
Recentemente, mediei um debate de uma obra futurista (o romance PARA UMA NOVA HUMANIDADE, de AFA VASQUEZ), cujo conflito dramático projeta justamente um cenário em que a gestação natural é substituída por sistemas artificiais, controlados por IA. A proposta central do autor é a de que a humanidade poderia se libertar das limitações biológicas do parto, criando uma nova forma de nascermais segura, previsível e tecnologicamente avançada.
A narrativa sugere que isso não é apenas uma inovação médica, mas uma revolução cultural, capaz de redefinir uma série de conceitos parentais vigentes e até mesmo a própria identidade humana. “PARA UMA NOVA HUMANIDADE” funciona como um espelho futurista, uma extrapolação literária do que hoje ainda é apenas experimental.
AFA VASQUEZ situa a sua obra no século XXII, mais precisamente em torno de 2120.Mas… acontece que estamos ainda em 2026, quase 100 anos antes. E a ideia de que a Inteligência Artificial PODE, sim, transformar o ato do nascimento, ou seja, tirar das mulheres o privilégio de gestar seus filhos é ainda por demais traumática para as nossas cabeças. Isso iria revolucionar a sociedade inteira, quer em termos de biotecnologia eMedicina reprodutiva, quer (principalmente) em termos de ética.
Todavia, pode-se dizer que a Inteligência Artificial já está apta a fazer isso. A pesquisa em gestação artificial (ectogênese)subsidiada emonitorada por IA, ou seja, os úteros artificiaisjá conseguiram manter vivos os fetos de animais em bolsas artificiais, garantindo condições ideais de desenvolvimento e crescimento. Resta saber se a mulherada vai mesmo topar a parada… perder o direito de dar à luz.
Eis que evitar o parto natural seria a total mecanização da vida. A reprodução poderia se tornar um processo técnico, afastando totalmente o aspecto emocional e humano da experiência.
O nascimento talvez seja o evento simbólico e humano mais significativo da face da Terra. Transferi-lo para as máquinas mudaria tradições, rituais e, sem dúvida, significados sociais básicos, tais como a forma como entendemos a família.
Se a vida fosse gerada fora do corpo humano, como redefiniríamos a maternidade, a paternidade e até mesmo o conceito de “nascer”?Inclusive, visto que tais tecnologias são caras, com certeza isso iria ampliar ainda mais as diferenças entre quem tem acesso a elase quem não o tem, quem pode pagar por “gestação artificial” e quem não pode.
Portanto, penso que ainda não é chegado o tempo de realizarmos o “desejo de minha amiga”. Mas, a IA pode ajudar sim, e muito! Para começar, pode concretizar a verdadeira biotecnologia personalizada, analisando o DNA dos pais, prevendo doenças hereditárias e ajudando-os a tomarem decisões mais conscientes sobre sua reprodução.
Pode também propiciar uma seleção embrionária muito mais inteligente, executando com muita competência a tal da reprodução assistida, otimizando a fertilização in vitro, identificando embriões com maior chance de sucesso, reduzindo falhas e aumentando a eficiência.Inclusive, já predefinindoo sexo do bebê.
A IA, acoplada à tecnologia dos sensores, consegue fazer um diagnóstico e um monitoramento gestacional bem mais avançado, prevendo complicações antes que ocorram, reduzindo riscos para mamãe e bebê.Por sua vez, a cirurgia robótica assistida por IA pode ajudar em cesarianas e partos complexos, tornando tais procedimentos mais seguros e menos invasivos.
Moral da história: convém que a IA apoie, sim, práticas médicas ligadas à reprodução, tornando-as mais seguras e previsíveis. Mas… substituir totalmente o parto, nem pensar! Isso seria um deus-nos-acuda, que mexeria não só com a Medicina, mas com a essência da cultura e da identidade humana. Pelo menos, não antes de 2120, como avalia sensatamente AFA VASQUEZ, pseudônimo do paulistano (mas “mineiro de coração”) Rafael Vasquez, que escolheu São João del-Rei para consolidar sua carreira artística. E que teve seu livro premiado ano passado no Sul das Geraes.
Portanto, querida C******** de P********, por enquanto as mulheres continuarão a parir, elas próprias! Mas, se quiserem, também poderão optar por não fazê-lo muito em breve.
* Doutora em Letras, com pós-doutorado em Linguística, escritora, conferencista e palestrante, membro eleito da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia membro fundador da Academia Feminina Sul-Mineira de Letras

