Tribuna Ribeirão
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Psicologia da vida cotidiana (20): O legado de Alfred Binet (1857-1911)

José Aparecido Da Silva*

 

Em 1904, Alfred Binet participou de uma comissão visando propor o que poderia ser feito sobre a educação das crianças com dificuldades de aprendizagem nas escolas de Paris. Ele e sua equipe desenvolveram uma escala que consistia em 30 breves tarefas arranjadas em ordem de dificuldade. Esta primeira escala apareceu em 1905, com revisões em 1908 e 1911. Naquela ocasião, Binet arguiu que havia três métodos para mensurar a inteligência. O primeiro era o método médico que procurava os sinais patológicos, fisiológicos e anatômicos da inteligência inferior. O segundo era o método pedagógico que se baseava no conhecimento adquirido na escola como um meio para mensurar a inteligência, que ele considerava como a soma do conhecimento adquirido (inteligência em geral). O terceiro é o método psicológico que se focaliza na observação direta e na mensuração do comportamento inteligente. O que Binet fez foi simplesmente engenhoso. Ele genialmente relacionou o nível de habilidade à idade.

Ele raciocinou que quando as crianças crescem, elas funcionam mais eficientemente quanto mais a inteligência estiver envolvida. Se apresentarmos a uma criança de cinco anos um problema (por exemplo, apontar o elemento que está faltando numa série de desenhos coloridos) que ela não pode resolver, ela repentinamente será hábil em fazê-lo quando tiver seis, sete ou oito anos. Se a criança média pode resolver este problema na idade de cinco anos, mas não com quatro, então o nível etário do problema é cinco anos. Qualquer criança que pode resolver o problema é dita, então, ter uma idade mental de (pelo menos) cinco anos, qualquer que seja a sua idade cronológica.

Em 1912, Wilhelm Stern, um psicólogo alemão, propôs que o nível mental da criança, ou idade mental, fosse dividido pela idade cronológica dessa mesma criança para produzir um quociente de inteligência. Stern juntou a idade mental e a idade cronológica numa mesma formula, indicando o QI. Uma criança de 6 anos, mas com uma idade mental de 8, poderia então ter um quociente de 1,33, enquanto uma de 10 anos de idade teria uma razão de 0,75. Uma criança que estivesse na média teria um quociente de 1. Depois, esses quocientes foram multiplicados por 100 para eliminar o ponto decimal e produzir uma métrica tal como conhecida hoje.

Um problema em usar idade como a métrica para a habilidade é que, no curso normal do desenvolvimento humano, a taxa de crescimento na habilidade diminui dramaticamente durante os anos da adolescência. Embora um grande corpo de evidências leva-nos à conclusão de que o crescimento intelectual em termos de escores de testes, geralmente, alcança um limite por volta da idade de 16, ou início dos 20 anos, exatamente como ocorre com o crescimento físico, a realidade parece normal no caso deste último e simplesmente inaceitável no primeiro. Para se estimar o QI supõe-se que o desenvolvimento intelectual atinge uma assíntota por volta dos 16 anos de idade e que a razão entre IM e IC não muda ao longo da idade de 5 anos (quando os QI(s) podem ser significativamente mensurados) até a idade de 16 ou mais. Após 16 anos o crescimento mental para gradualmente de aumentar, de modo que a IM não mais aumenta e, por consequência, após aquela idade nós não podemos usar mais a fórmula, tal como ela é.

Como nós podemos então calcular o QI para adultos? Quando mensuramos o QI das crianças, eles são distribuídos na forma de uma curva normal ou gaussiana (nomeada, assim, após o famoso matemático Karl Friedrich Gauss tê-la descoberto). Este padrão de distribuição assemelha-se a uma curva de um sino. A curva mostra que poucas crianças têm QI muito alto ou muito baixo, com 50% entre 90 e 110. Apenas 0,4% tem um QI acima de 140 ou abaixo de 60. Uma distribuição similar pode ser obtida se simplesmente dermos a cada criança um escore derivado do número total de respostas corretas que ela obtém num teste. Podemos usar a curva normal para transformar escores de QI diretamente para adultos e crianças, procedimento que atualmente tem se tornado praticamente universal. É importante notar que os QI(s) não são realmente de qualquer espécie, mas retêm o nome de QI, embora sejam derivados por uma fórmula alternativa. Outro parâmetro importante da curva normal é o chamado desvio padrão (DP), o qual denota a amplitude da curva total. Se uma criança muito brilhante tivesse um QI de 120, e a mais idiota, um QI de 80, a curva seria muito mais comprimida, tal como indicado por um DP menor. A média e o DP são suficientes para descrever matematicamente a curva. Três DP(s) de cada lado da média incluem praticamente a maioria da população, com apenas uma pequena proporção saindo desses limites. Para o QI, um DP é usualmente fixado em 15.

Assim, QI é um escore padronizado com média igual a 100 e desvio-padrão igual a 15. Valores de QI (s) entre 85 e 115 são considerados dentro da amplitude de normalidade.

Professor Titular Sênior da USP-RP*

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