José Aparecido Da Silva*
Para Lucy Leal, colega de departamento e amiga desde tempos idos, cuja vida – latente e manifesta -floresce e resplandece alegria e felicidade
Todo ser humano, sem limitação de sexo, raça, crença ou idade, busca, em consenso, o que se convencionou chamar de felicidade. Claramente inserida na Declaração Americana da Independência, verifica-se que, até mesmo, o Rei do Butão, localizado na Ásia Central, e de difícil acesso, à semelhança do Produto Nacional Bruto, esforçou-se para maximizar “A Felicidade Nacional Bruta”. Entretanto, ainda que debatida há milênios, trata-se de uma questão cujos pensadores, até o momento, ainda não chegaram a um consenso definitivo. Diferindo, algumas vezes, entre os teóricos, o conceito felicidade levou Aristóteles a observar, 2.300 anos atrás, que, acima de qualquer coisa, o Homem busca a felicidade, autorrealizando-se em verificar que suas potencialidades se constituem como ingredientes ativos dela.
Para o filósofo Jeremy Bentham, felicidade consistia na presença do prazer e na ausência de dor. Similarmente, em consonância com teóricos contemporâneos, felicidade é o que emerge quando várias condições específicas de vida, tais como, autoaceitação, domínio ambiental, crescimento pessoal e intimidade, são alcançadas. Outros, ainda vinculados à tradição de Bentham, definem a felicidade como a experiência média direta, que envolve prazer e dor, ou, então, como sinônimo de bem-estar subjetivo e avaliação subjetiva do encaminhar da própria vida. Tal subjetividade, visualizada na qualidade de vida, é democrática no sentido de garantir, a cada pessoa, o direito de decidir se sua vida vale a pena, ou não. Neste sentido, definir a “vida agradável” é o que os pesquisadores usualmente denominam de bem-estar subjetivo ou, em termos mais coloquiais, o que denominam de felicidade. Uma vez tomada como bem-estar subjetivo, refere-se às avaliações individuais, afetivas ou cognitivas, que as pessoas têm de sua própria vida. Estas vivenciam um alto bem-estar subjetivo quando sentem mais emoções prazerosas, engajam-se em atividades interessantes, vivenciam mais bem-estar que dor e, resultante disso, quando estão satisfeitas com suas vidas. Portanto, o campo do bem-estar subjetivo focaliza as avaliações pessoais que as pessoas fazem de suas próprias vidas.
Outras perspectivas? Estudos psicológicos, fortemente influenciados por fatores genéticos, consistindo em componentes emocionais (vivenciar menor desprazer) e cognitivos (avaliar a própria vida como boa), que mensuram, válida e fidedignamente, a felicidade. Entretanto, poucos são os estudos que investigam a localização da felicidade no cérebro, bem como, por que algumas pessoas, e outras não, são felizes, e em qual intensidade. Estaria a felicidade, então, ligada a algum substrato neural específico? Se sim, ou não, o que muitos perguntam? Onde se esconde a felicidade? A resolução dessa questão motivou pesquisadores japoneses, da Universidade de Kyoto, a empreenderem estudo original no qual imageamento baseado em ressonância magnética estrutural foi relacionado com questionários que avaliavam a felicidade subjetiva, bem como, a intensidade das experiências emocionais positivas e negativas e o propósito de vida. Os participantes (51 voluntários, com idade média de 23 anos) foram submetidos às escalas de felicidade subjetiva (usada para medir a felicidade subjetiva global) e de intensidade emocional (usada para avaliar a intensidade das emoções positivas e negativas), bem como, o teste de propósito na vida (usado para avaliar o componente cognitivo da felicidade) e o inventário de traços de ansiedade (usado para medir traços e estados associados com ansiedade) para que seus escores, posteriormente, fossem correlacionados com seus parâmetros individuais de volume de matéria cinzenta.
Paralelo a isso, imagens de ressonância magnética funcional foram usadas para identificar as regiões cerebrais, em especial o volume de matéria cinzenta, associados com felicidade subjetiva e com intensidade de emoções positivas e negativas e escores de propósito na vida. As análises do imageamento estrutural revelaram que o escore de felicidade subjetiva foi associado com um aumentado volume da matéria cinzenta, numa região do lobo parietal denominada pré-cúneo (ou precuneus), área esta que sempre é ativada quando nos sentimos felizes. Além disso, a mesma região mostrou uma associação com intensidade emocional positiva e negativa combinadas e com escores referentes a propósito na vida. Em outras palavras, o estudo convincentemente revela que, embora a felicidade varie de pessoa a pessoa em função, obviamente, de seus escores médios na escala de felicidade total, há algo comum a todas elas, independente do sexo, da idade ou da crença religiosa: quem alcança escores mais elevados de felicidade é também aquele que revela um volume maior de massa cinzenta naquela pequenina zona do córtex cerebral: o pré-cúneo (ou precuneus). Esses substratos neurais, de fato, mediam a felicidade subjetiva, integrando os componentes cognitivos e emocionais da felicidade.
Professor Titular Sênior da USP-RP*




