Tribuna Ribeirão
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Psicologia & Neurociência (1): Econometria do Futebol

José Aparecido Da Silva*

 

Crônica dedicada aos grandes futebolistas Ângelo, Batalhão, Carlucci, Geraldão, Jair Gonçalves, Paullo Bim, Mauricinho, Baldocchi, Calegari, Paulo César, Mancini, Cicinho, Tadeu Ricci, Doni, Raí e muitos outros que consagraram a beleza e a inteligência no Futebol.

 

O futebol, como muitas outras de nossas criações e habilidades, tem múltiplas facetas, a saber: cognitivas, afetivas, emocionais, motivacionais e comportamentais. No dia Internacional da Felicidade, tive o bem-estar subjetivo de receber a visita do grande amigo, desde tempos idos, Luís Carlos Briza, catedrático em jornalismo esportivo. Num café alongado, no meu terceiro lugar, a cafeteria Day Off, lembramos histórias e estórias do futebol brasileiro e local. Briza e eu, ambos já entrando no inverno da vida, mas ainda com excelentes reservas cognitivas e mnemônicas. Briza com seus 76 anos saudáveis e eu na altura dos meus 74 anos. Temos uma grande emoção em comum: a paixão pelo futebol. Em algum momento de nossas saudades, lembramos, sincronizados, a grande seleção de 70, então impecável, imbatível e maravilhosa nas 4 linhas. Como o futebol era bonito e elegante. As habilidades prevaleciam. Discutimos que na linha de frente, tínhamos Jairzinho, então um dos grandes jogadores da Copa naquela data. O Pelé era o maior jogador que vimos jogar. Não há disputa sobre isso. Na ponta esquerda brilhava Rivelino, hoje recentemente completados 80 anos. Tostão, o centroavante inteligente, abrindo espaços, atraindo zagueiros, nunca egoísta, hoje médico e articulista de futebol na Folha de S. Paulo. Suas crônicas são sempre ensinamentos de como devemos conceber o futebol. O Capitão, com a braçadeira de chefe-maior, era o Carlos Alberto, nosso grande lateral direito e, eventualmente, um falso ponta-direita. Mas, o grande líder, o cérebro do time era o Gérson. Sua inteligência era elevada. Conhecia as características afetivas, as habilidades futebolísticas de cada um de seus companheiros. Sabia, mesmo sem olhar diretamente, onde seus colegas de jogo estavam. Seus passes milimétricos eram magistrais fossem eles em curta ou em longa distância. Para além disso, ele era o córtex pré-frontal, a inteligência geral (fator g), o maestro de uma afinada orquestra em que os seus onze músicos tocavam uma sinfonia numa nota só.

Mas, ao final e ao cabo, relembramos o futebol da terra dos canaviais. No passado terra do café. Alguns dizem capital do agronegócio. Parta mim, a Capital da Ciência. Poucos sabem disso. Aqui se produz quase 6% da produção cientifica nacional indexada em periódicos qualificados internacionalmente. Lembramos dos ComeFogo de outrora com estádios de lá e de cá lotados. Era o dia da felicidade na alta mogiana e para além na sorocabana. Ai que saudade me dá, as saudades deles ainda doem em mim. Lembramos de alguns atletas que fizeram a história e hoje (quase) esquecidos. Uns longe e outros perto. Infelizmente, a vida não tem replay, ela segue numa direção única. Discutimos que tivemos um nobre passado, mas agora sabemos que temos um curto futuro. Lembramos que sou um velho Corinthiano, aquele do+ Briza você precisa adivinhar. Voltemos então às 4 linhas do gramado, Futebol, esporte que a muitos fascina. Fosse uma língua todos a falariam sem erro. A Copa do Mundo, a que se aproxima, será realizada em 3 grandes nações: Canadá, Estados Unidos e México. Este grande evento é, ao lado dos Jogos Olímpicos, um dos maiores encontros esportivos do mundo. Tal característica já seria suficiente para despertar interesse de economistas e psicólogos por estes jogos, mas, cientificamente, outras são as causas mais importantes. A intervenção governamental no esporte é substancial porque governantes entendem que ele traz amplos benefícios político-sociais. Argumenta-se que, promovendo atividades físicas, promovem, também, benefícios à saúde. Nos últimos anos, a ocorrência de debates, entre economistas e empreendedores, tem promovido a discussão de alegados benefícios econômicos por eles gerados em grandes eventos. Um balanço destas evidências aponta para a conclusão de que tais benefícios são negligenciáveis ou não existentes.

Há estudos analisando tanto o impacto econômico, quanto o aumento dos registros de felicidade, ou bem-estar subjetivo, entre os cidadãos da nação que sedia grandes eventos esportivos, afirmam que investimentos públicos produzirão benefícios econômicos líquidos, do tipo Keynesiano e, também, efeitos multiplicadores. Neste contexto, quatro fatores têm sido considerados: (a) Emprego e salários, (b) Estádios esportivos e seus legados, (c) Turismo e (d) Investimentos em infraestrutura e reurbanização. Análises geradas de diferentes modelos econométricos dão suporte limitado à ideia de que sediar grandes eventos esportivos produz aumentos significativos nas atividades econômicas. Mesmo que alguns benefícios possam ser reconhecidos, poder-se-ia ainda considerar que os limitados recursos públicos deveriam ser usados para financiar hospitais e escolas, gerando empregos, enriquecendo o bem-estar e o capital humano, e, potencialmente, aumentando a produtividade. Quando considerando dados sobre os indicadores de felicidade, nos países europeus nos últimos 30 anos e, especificamente, o sucesso dos times nacionais, nas olimpíadas de verão e nos grandes campeonatos de futebol, tem-se que: Copa do Mundo (FIFA) e Campeonatos Europeus (UEFA), em variadas análises, revelaram que o sucesso dos atletas nacionais tem pouco efeito sobre o bem estar dos cidadãos; mas, o fato de sediar significativos eventos esportivos, em particular grandes campeonatos de futebol, é associado com um aumento na satisfação com a vida registrada no período após estes eventos. Não é ganhar um evento, mas sediá-lo, que cria o fator de “sentir-se bem”. Logo, uma melhor justificativa para despender recursos públicos nestes eventos seria afirmar que, embora estes não nos façam mais ricos, tornam-nos, é certo, mais felizes.

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