Tribuna Ribeirão
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Revistando Cony

Rui Flávio Chúfalo Guião *
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Quando os jornais noticiaram o centenário de nascimento de Carlos Heitor Cony, no dia 14 de março e publicaram sua vasta obra literária, escolhi, dentre seus livros, três ainda não lidos e que chamaram minha atenção. Assim, recorrendo à Estante Virtual, comprei Pilatos (1974), Quase Memória (1995) e Paixão Segundo Mateus, póstumo (2022).

Meu primeiro contato com a obra do grande escritor, contista, cronista, teatrólogo, tradutor deu-se em 1997, quando li seu livro A Casa do Poeta Trágico, obra que nos faz aceitar que cada um de nós abriga um poeta, que vive as incertezas e as surpresas da vida. Narrando mais o ambiente do que uma trama de começo, meio e fim, deixou-me a certeza de que estava diante de um grande escritor.

Carlos Heitor Cony nasceu no Rio de Janeiro em 14 de março de 1926, onde fez seus estudos iniciais e ingressou em seminário em subúrbio daquela capital. Depois de   sete anos, chegou à conclusão de que não se adaptava à vida sacerdotal. Dedicou-se então à imprensa, trabalhando em vários jornais cariocas, notadamente no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã, onde críticas ao regime militar recém implantado o obrigaram a se auto asilar na Europa e Cuba.

Retornando ao Brasil, deu asas àsua carreira de jornalista, cronista e escritor, dirigindo vários órgãos de comunicação.

Seu primeiro livro, O Ventre, foi editado em 1958 e demonstrou o talento e a criatividade do autor. Seguiram-se mais de vinte e cinco obras, das quais doze romances, além de crônicas, contos, traduções.

Em 2020, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número três, cujo patrono é Artur de Oliveira.

Cony faleceu na cidade onde nasceu, em 2018, com a provecta idade de 91 anos.

Pilatos, muito distinguido pela crítica especializada, conta a história de um morador de rua que, atropelado, perde o pênis, que lhe é entregue num vidro de pêssego em calda. As peripécias do dono com sua nova propriedade e as aventuras daí decorrentes são a matéria da obra, a qual, confesso, não me agradou muito.

Quase Memória, romance ou quase-romance, como diz o autor, foi editado depois  de um lapso de vinte e um anos do livro anteriormente citado e é uma obra extraordinária, onde, misturando biografia e ficção, Cony fala de seu pai, um homem fora do comum, de sua influência na sua formação e nas lembranças que guarda de sua história desde pequeno. Pode-se dizer  que o livro é a sua obra prima.

Os originais de Paixão Segundo Mateus foram descobertos pelos familiares e lançado em 2020. É uma obra muito interessante, com sinais de coisa ainda inacabada, na realidade dois escritos aparentemente desconectados, mas, que mostram o brilhantismo do escritor, seu cuidado com a escrita, seu espírito crítico e sua criatividade.

Todos os três livros, mesmo o Pilatos, são agradáveis de se ler. O contato com a fina ironia de Cony, as divagações existenciais sobre a influência religiosa dos pais, sua vida no seminário e a vivência do dia a dia, quando se questiona se não se tornou ateu, são momentos marcantes de nossa literatura, que precisam ser conhecidas e desfrutadas por todos.

* Advogado e empresário, é presidente do Conselho da Santa Emília Automóveis e Motos e secretário-geral da Academia Ribeirãopretana de Letras

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