Por Hugo Luque
Em uma cidade onde a mesa de bar é berço de grandes histórias, conversas e ideias, uma nova força esportiva prova, desde um bate-papo descontraído há seis anos, que Ribeirão Preto é terreno fértil para outras modalidades além do futebol de campo. O Ribeirão Fut7, que neste ano inicia um capítulo marcado por uma nova parceria, é um caso raro de sucesso meteórico. Nascido oficialmente em 2020, o projeto desafiou a pausa da vida na pandemia para se tornar, em menos de cinco anos, uma das equipes mais vitoriosas do país.
Como era de se imaginar, na terra do chopp gelado e da cerveja artesanal, a grande ideia veio na “resenha” de um pós-jogo entre amigos. Junior Borelli, presidente do projeto, recorda com saudosismo o estalo inicial. “A fundação do time foi numa conversa de quadra. A gente estava jogando bola na R6 (quadra esportiva), e o Beto, que é jogador nosso, estava jogando na época em Serrana. E ele, no pós-jogo, ali tomando uma cerveja, falou: ‘Por que a gente não monta um time em Ribeirão? Vamos montar um time em Ribeirão. Ribeirão é grande, isso é bacana. A gente corre atrás de trazer bons jogadores.’ Foi isso, foi em uma conversa informal, tomando uma cerveja, que começou tudo”, revela o dirigente.
O início, porém, exigiu mais do que o entusiasmo inicial. O mundo enfrentava as restrições severas da covid-19. O diferencial para que o Ribeirão Fut7 não fosse apenas mais um time amador foi o recrutamento de talentos. Segundo Borelli, a equipe conseguiu formar um grupo seleto de jogadores que já tinham entrosamento prévio na região.
“Um jogador já conhecia o outro, e isso facilitou muito. Na época, a gente tinha um pessoal muito interessado na Secretaria de Esportes em fazer o projeto prosperar, porque há muito tempo não tinha futsal e nem o fut7 em Ribeirão Preto. Conseguimos também o apoio de algumas empresas privadas”, explica.
A parceria com o Botafogo
A consolidação definitiva veio com a parceria estratégica com o Botafogo, uma união que durou dois anos e colocou o Fut7 de Ribeirão nas manchetes nacionais e internacionais. Vestir as cores do Pantera trouxe uma responsabilidade que foi prontamente convertida em títulos de expressão.

Em parceria com o clube, a equipe conquistou o Campeonato Paulista, a Copa do Brasil e atingiu o topo do continente ao vencer a Copa América, disputada na Argentina. Antes de adotar as três cores da camisa botafoguense, a equipe já havia conquistado o Campeonato Brasileiro, em 2023.
“A parceria com o Botafogo, com certeza, trouxe visibilidade. O time de futebol está na principal divisão do Paulista e na segunda divisão do Brasileiro. É uma entidade a ser respeitada”, afirma Borelli.
Ele detalha que o modelo de negócio era rigoroso. De acordo com o presidente, toda a identidade e visibilidade em mídias sociais do time passavam pela aprovação do marketing do Bota. “Eles nos ajudavam com toda a parte de uniforme. Somos gratos pelo tempo que ficamos juntos”.
Com o encerramento do ciclo com o Botafogo, no fim do ano passado, o Ribeirão Fut7 buscou um novo parceiro para manter sua competitividade. Foi a partir do futsal, modalidade que Borelli afirma ter usado como “gancho” para o projeto, que o conjunto deu sequência nas atividades nesta temporada.
Novo parceiro e paralisação do Futsal Ribeirão
O ano de 2026 marca uma mudança de ares. O projeto agora leva o nome de Barão de Mauá/Ribeirão Fut7. Essa nova era coincide com uma notícia impactante para o esporte da cidade: a pausa nas atividades do Futsal Ribeirão durante todo o ano de 2026, movimento anunciado na última semana.
Até então, o Barão de Mauá era o grande fomentador da equipe de quadra do município, que estava em atividade desde 2018, já conquistou dois títulos da Copa da Liga Paulista de Futsal (LPF) e vinha de um vice-campeonato em 2025.
Apesar do histórico vencedor do Futsal Ribeirão, Junior Borelli enxerga a migração como uma evolução natural e uma oportunidade de absorção de talentos.
“Eu entendo que não teve impacto nenhum anunciar a migração do futsal para o Fut7. O maior impacto foi na Liga Paulista, porque nós éramos considerados um dos times pilares da Liga”, analisa. “Já com os jogadores, estamos aproveitando a maioria dos que estavam no futsal. Estamos agregando novos jogadores de Ribeirão Preto ao Fut7, dando oportunidade para atletas que têm talento e precisam ser lapidados. (…) A gente vai alçar novos voos e disputar campeonatos de nível nacional, o que nós ainda não tínhamos no futsal.”
Essa mudança reflete uma leitura de mercado. Borelli acredita que o Fut7 (popularmente conhecido como “society”) possui facilitadores logísticos que o tornam mais viável e atraente que o futsal.
“Acredito que a tendência é dominar grande parte do Brasil por conta dos seus facilitadores: uma quadra de 50 por 30 metros, grama sintética, pode estar localizada em qualquer área, não precisa ter cobertura. A tendência do Fut7 é crescer muito. Depois do futebol de campo, acho que ele pode superar o futsal nos próximos cinco anos”, projeta.
Desafios e futuro
Apesar dos títulos e da visibilidade, a realidade cotidiana é de muita luta. Em uma cidade polarizada pelo clássico Come-Fogo, o Ribeirão Fut7 precisa provar seu valor diariamente para atrair patrocinadores. Borelli é enfático ao dizer que o projeto não compete diretamente com os gigantes do campo, mas busca seu próprio espaço na prateleira do esporte amador.
“O esporte de alta performance exige e pede estrutura. (…) Sem esse incentivo da iniciativa privada e do setor público, fica muito difícil de ser mantido. Temos que dar todo o apoio físico, psicológico, de saúde, além de grande estrutura. Senão, só entra em quadra para ‘trocar figurinhas’”, relata o presidente.

As dificuldades passam pela manutenção dos salários e pela logística de viagens para competições nacionais. Afinal, os atletas também têm suas vidas sem as chuteiras. “Nosso time é formado por jogadores que também têm suas profissões. O pessoal trabalha de dia e, à noite, treina quase todos os dias para buscar a melhor parte técnica e física.”
O que atrai esses atletas a manterem essa rotina de dupla jornada é a vitrine que Ribeirão construiu. “O maior atrativo hoje é a visibilidade. (…) Eles jogam contra times de renome como Corinthians, Santo André, Ponte Preta e Guarani. Todos os jogadores que atuam no society em Ribeirão e região querem estar no nosso time para também ter essa exposição”, explica Borelli, que também destaca o trabalho de mídia digital que sustenta a marca.
Com a nova parceria consolidada e o calendário de 2026 a pleno vapor, as metas são ambiciosas. A equipe já iniciou de forma positiva a disputa do Troféu Federação e tem no radar o Campeonato Paulista, a Copa do Brasil e o Brasileiro. O grande sonho, contudo, é o retorno ao cenário internacional. “Vamos precisar de apoio e patrocínio para disputar a Libertadores da América. É o que nós queremos”, afirma Borelli.
Com relação ao futuro a longo prazo, a meta é transformar o Barão de Mauá/Ribeirão Fut7 em um patrimônio esportivo reconhecido pelos ribeirão-pretanos. Para o presidente, o time já cumpriu a primeira etapa dessa missão.
“Acredito que, hoje, já somos a principal força do interior. Queremos permanecer entre as maiores forças do Brasil. (…) Lembrando que, no esporte, digo sempre isso, só um é campeão, e o que a gente quer é conquistar títulos ou estar sempre perto dos campeões. Isso é fazer um bom trabalho”, finaliza.

