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Shakespeare e Jesus: lições eternas para a humanidade

Rodrigo Gasparini Franco *
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No palco sombrio do teatro shakespeariano, poucos momentos são tão impactantes quanto o desfecho de Ricardo III. William Shakespeare, mestre em desnudar a alma humana, constrói no final dessa tragédia um retrato devastador do vazio existencial. Ricardo, o rei usurpador que, durante toda a peça, manipula, trai e elimina adversários com frieza, chega ao ápice de sua solidão e desespero. O poder, que parecia ser seu único objetivo, revela-se incapaz de preencher o abismo interior que ele mesmo cavou. Em meio à noite que antecede sua derrota, Ricardo é assombrado pelos fantasmas de suas vítimas e, ao acordar, depara-se com a mais cruel das realidades: não há ninguém ao seu lado, nem mesmo ele próprio.

A célebre passagem -“Tenho medo do quê? De mim mesmo? Não tem mais ninguém aqui. É Ricardo gostando de Ricardo, isso sim: eu e eu também” – ecoa como um grito de desamparo. O rei, que sempre acreditou ser autossuficiente, descobre que seu amor-próprio não passa de uma tautologia vazia. Ele não ama a si mesmo de verdade; apenas repete seu nome, tentando convencer-se de uma identidade que já não reconhece.

O egoísmo que o guiou por toda a vida agora se volta contra ele, tornando-se fonte de angústia e medo. Ricardo percebe que, ao rejeitar as emoções e relações humanas em prol de uma visão puramente utilitária, acabou por perder até mesmo a si próprio. O trono, símbolo máximo de poder, transforma-se em prisão, e o rei, outrora temido, é reduzido a um homem aterrorizado diante do próprio reflexo.

Esse vazio existencial, tão bem capturado por Shakespeare, ressoa de maneira inquietante no mundo contemporâneo. Vivemos em uma era marcada pelo individualismo exacerbado, em que o “amor-próprio” muitas vezes se confunde com narcisismo e isolamento. As redes sociais, que prometem conexão, frequentemente alimentam a busca incessante por validação, mas raramente oferecem vínculos autênticos.

O sentimento egoísta, que impera em muitos aspectos da vida moderna, cria uma ilusão de autossuficiência; contudo, assim como Ricardo, muitos acabam descobrindo que o isolamento é o preço a pagar por esse suposto triunfo do “eu”.

É nesse ponto que a reflexão de C.S. Lewis, em seu livro Como Ser Cristão, torna-se especialmente relevante. Lewis explora a complexidade do amor, sugerindo que o verdadeiro afeto, especialmente o cristão, vai muito além do simples apego a si mesmo.

Para ele, o amor autêntico envolve o direcionamento do coração a Deus e ao próximo, em oposição a um ego autocentrado. Lewis argumenta que o amor-próprio, quando isolado, torna-se estéril e vazio, incapaz de gerar sentido ou felicidade duradoura. Em contraste, o amor cristão é expansivo e relacional, pois só encontra plenitude quando se volta para fora de si.

A tragédia de Ricardo III serve, assim, como um espelho incômodo para a sociedade atual e um contraponto à proposta de Lewis. O personagem de Shakespeare, ao tentar bastar-se e colocar-se acima de tudo, termina por perder a própria essência. Sua jornada é marcada por uma escalada de poder, mas o clímax é a revelação de que, sem laços verdadeiros, o ser humano torna-se refém de seus próprios medos. O vazio que Ricardo sente não é apenas a ausência de aliados, mas a falta de propósito e humanidade.

No final, a peça não oferece redenção ao protagonista. O desespero de Ricardo é absoluto e sua morte, inevitável. Shakespeare nos lembra que o egoísmo, levado ao extremo, não conduz à liberdade, mas à solidão. A frase

“É Ricardo gostando de Ricardo, isso sim: eu e eu também” permanece como um alerta: o amor-próprio, quando desprovido de empatia, transforma-se em um eco vazio. Em tempos de individualismo crescente, a lição shakespeariana entrelaça-se ao chamado cristão para um amor que transcende o “eu”, conforme o ensinamento de Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

* Advogado e consultor empresarial de Ribeirão Preto, mestre em Direito Internacional e Europeu pela Erasmus Universiteit (Holanda) e especialista em Direito Asiático pela Universidade Jiao Tong (Xangai)

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