73, tô chegando

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Sou de libra, tive o privilégio de nascer em plena primavera, esta maravilhosa estação que inspira poetas, compositores e pintores, entre outros. Conheço muitos artistas nascidos sob a regência deste signo. Libriano tem uma característica marcante, ele se veste pra agradar a ele. Esse cara sou eu (rsrs).

Pois é, em 18/10/2020 farei 73 anos, depois dos 50 meu prazo de validade voou e a neve tingiu todo meu telhado. Dia desses dei uma encarada no espelho e vi minha cuca parecendo campo de futebol de várzea, onde o meio campo fica meio que desgastado. Geri, meu barbeiro, sempre que passa a tesoura diz: “Buenão, tá rareando”.

Todos estes anos se foram e não percebi, acredito que seja por estar sempre em processo de criação, e quero continuar assim até que nosso bom Deus diga: “Buenão, venha pra cá, tenho coisas pra você fazer por aqui”. E eu responderei: “Estou pronto, meu pai, tamo junto”.

Recebi um vídeo no meu zap, em que o ator americano Clint Eastwood estava jogando golfe com compositor de músicas country Toby Keit. Clint disse a ele que faria 88 anos na segunda feira, e Toby lhe perguntou o que ele iria fazer. Clint respondeu que começaria a gravar um filme, na semana seguinte. Surpreso, Keit perguntou o que o impul­sionava. E Eastwood respondeu que, todas as manhãs quando se levanta, não deixa o velho entrar. É o que tento fazer, não deixo o velho entrar.

O que é lenço, vovô?

Meu netinho Kauã tinha quatro aninhos e um dia, na minha casa, estava me vestindo pra sairmos. Ele fazia perguntas sobre tudo, era aquela sede de tudo querer saber. Pois bem, guardo meus lenços na gaveta de cuecas e disse a ele: “Kauã, pegue um lenço aí na gaveta pro vovô”. E e ele: “O que é lenço, vovô?” Respondi: “É esse pedacinho de pano dobrado aí no cantinho”. Ele me entregou o lenço com outra pergunta: “Pra que serve o lenço, vovô?”

Pra não embaralhar sua cabecinha, fiquei pensando o que respon­der, mas ele me complicava cada vez mais, e tudo por causa de um lenço, esse acessório em desuso por sua geração. Disse a ele que meu pai usava e que eu achava bonito o homem usar. “Tá certo, vô, mas pra que serve?”

Respondi: “Kauã, raramente fazemos o uso do lenço, às vezes quando estamos resfriados, mas na maioria das vezes, socorremos alguém com ele, uma pessoa que cai na rua e se fere, e também tem o lado romântico. Quando vovô era moço, ia ao cinema com a namo­rada e se o filme fosse triste e ela chorasse, o vovô tirava o lenço do bolso e enxugava as lágrimas dela”.

Ele ficou em silâncio por alguns segundos, olhei seu rostinho, no­tei que estava pensativo e eu já imaginando o que iria sair daquela boqui­nha. Não demorou quase nada, lá veio a bomba: “Vovô, a sua namorada era a minha vovó?” Aí eu não aguentei, dei-lhe aquele abraço de vovô apaixonado e falei: “Lógico que era sua vovó, Kauã”. E ele: “Ah, bom”.

Depois, caminhando comigo pelas ruas, ainda voltou ao assunto. “Vovô, quando eu crescer, também vou usar lenço”. “Legal”, disse, “vovô tem bastante, te darei um e aí você guarda no cantinho de sua gaveta.” Antes que eu completasse ele disse: “De cuecas, vovô?” Kauã hoje está com 11 anos, talvez não se lembre deste nosso bate-papo, mas eu? Como esquecer?

Estou chegando aos 73 anos, sou grato a Deus por ter me presen­teado com amigos maravilhosos, sou grato a ele pela sagrada família que pude construir, agradeço a ele por ter permitido que eu embalasse em meus braços dois filhos e dois netos. Se meus passos hoje são lentos, lembro-me de que já corri muito na vida, se a memória falha, sinal de que a gaveta tá cheinha de histórias como essa. Encerro com esta minha frase: Tarde demais pra fazer o que não fiz e espero ter tempo pra fazer o que ainda desejo.

Abreijos, queridos amigos…

Sexta conto mais.

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