Autor de “A Elite do Atraso” (2017), o sociólogo Jessé Souza lança agora “A Classe Média no Espelho” pela Estação Brasil. Percorreu todo o mundo e conheceu muitas socieda­des. Nenhuma delas tão desigual e perversa como a brasileira. Seria herança da escravidão, absorvida naturalmente sem ter sido questionada o quanto deveria?

A classe média é um estamento bastante polêmico. Estaria entre a classe pobre e a classe rica. Isso era muito evidente há algumas décadas. Hoje não é. O acesso às redes sociais dis­ponibiliza hábitos que vão homogeneizando as pessoas. Para tal contribuiu a TV Globo em seus tempos áureos, acabando com os regionalismos idiomáticos e impondo o “carioquês” com seus sh-sh-sh e seu “não é mermo, brother?”.

Ainda é recorrente o tratamento humilhante de quem se fortalece inferiorizando o subalterno. A chamada elite não estuda, não procura analisar o que acontece no mundo e comparar com o Brasil. Cultiva o complexo de “vira-lata” e se satisfaz com explicações que se eternizam, sem discuti-las.

Uma dessas é a de que a corrupção veio de Portugal e é inextrincável. O sociólogo critica o que chama de “santíssima trindade do liberalismo chique brasileiro”: Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Fernando Henrique Cardoso. Jessé chama essa doutrina de “liberalismo tosco”. Daí o “ódio ao pobre”, resultado do acordo entre a elite e a classe média.

Discutível a existência de classe média, quando nos últi­mos anos quase todos empobreceram e foram empurrados para a pobreza. Daí o subterfúgio de se falar em classe média “alta”, “média-média” e classe média “baixa”. Assim como po­lêmico o percentual de 70% de conservadores e 30% de classe média crítica. Esta é a que respeita as minorias e tem uma pauta progressista dentro do neoliberalismo.

Para Jessé Souza, a corrupção política é “uma gota den­tro do oceano” da verdadeira corrupção, quando se a coteja com os subsídios a setores privilegiados e a sonegação. Não é Lava-Jato, nem escândalo da Petrobrás que retratam situações que acabam com o Brasil. “A corrupção política é usada para tornar invisível o saque feito pelas elites”.

O autor foi Presidente do IPEA entre 2015-2016, mas não poupa o PT, que “enfiou no próprio ventre a faca do moralis­mo postiço”. É melhor ler o livro para chegar a uma conclusão mais abalizada.

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