Uma chuvinha fina, mas persistente, nos levou a visitar a Coleção Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Da janela de nosso quarto, o Via­duto das Águas Limpas, que, majestoso decora o vale abaixo, era quase todo coberto pela cortina de água, indicando que teríamos de desistir de flanar pela cidade e nos abrigar num museu. Há bastante tempo, ensaiávamos visitar a Fundação Calouste Gul­benkian, vontade sempre dissuadida pelo sol brilhante que colore o casario da capital portuguesa. Finalmente, havia chegado o dia e a visita foi uma extraordinária surpresa, pela qualidade, variedade e beleza da coleção exibida.

Calouste Gulbenkian nasceu na Turquia, de etnia armênia, que viria a sofrer perseguições e genocídios. Estudou em Londres e, desde cedo, demonstrou sua capacidade de negociador.

Embrenhou-se na intermediação de negócios entre grandes empresas e especializou-se na área petrolífera, onde não só patrocinou a fundação da primeira companhia petroleira a explorar as reservas do Iraque, como trouxe à região a exclusividade de exploração por companhias americanas. Pelo sucesso de suas negociações, recebeu 5% da venda do petróleo, que estouraria na região. As grandes iniciativas econômicas do Orien­te Médio sempre tiveram Gulbenkian como protogonista e ,quando morreu, era o homem mais rico da Terra.

Formado na Inglaterra, logo iniciou sua coleção de arte, enriqueci­da por quadros de Rembrandt do Museu Hermitage que lhes foram vendidos por Stalin , em retribuição ao seu trabalho para o desen­volvimento do petróleo russo . Embora cidadão naturalizado inglês, durante a II Guerra Mundial mudou-se para Portugal, país neutro no conflito e o mais perto das Américas, em caso de ter de abandonar a Europa.

Depois de sua morte,em 1955, foi constituída uma fundação, com sede em Lisboa, para onde foi levada a coleção de arte mantida em sua mansão em Paris.

Num prédio moderno criado por arquitetos portugueses, em meio a um magnífico jardim sombreado, as duas grandes coleções (clássica e moderna), além da biblioteca do mecenas, tem a característica de mostrar objetos que decoravam uma casa, assim mesclam vários estilos e períodos e são muito variados. Embora colocados em salas que obedecem à cronologia das obras, mesclam tapetes, frisos antigos, arte armênia, japonesa e contem­porânea. Seus quadros exibem obras de Rembrandt, Fragonard, Monet, Degas, Renoir e Manet.

A Coleção Lalique, no meu entender, é o ponto alto da mostra. Nascido na França, Rene Lalique subverteu o mundo das joias ao usar, no período ArtNoveau, materiais como vidro, esmalte,couro, marfim, nácar em suas obras. Era também grande vidreiro, produzia peças exclusivas, a ponto de chamar a atenção de Coty, um dos mais célebres perfumistas franceses, que passou a usar seus vidros como embalagem sofisticada de perfume. Sua empresa existe até hoje, dando ao mundo obras maravilhosas de vidro e cristal.

Amigo pessoal de Gulbenkian, para ele fez joias, centros de mesa,porta espelhos exclusivos. É maravilhoso observar os finos detalhes das joias,sejam pequenas ou maiores, a delicadeza das figuras gravadas no cristal, a grandiosidade dos objetos maiores. É a maior coleção de Lalique que existe.

Exposições temporárias são também exibidas na Fundação. Na nossa visita, tivemos oportunidade de ver a mostra “Sara Affonso e a Arte Popular do Minho”, com quadros da artista moderna em obras primitivas que retratam a riqueza cultural daquela região portuguesa.

Visitar a Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa é imergir num mundo mágico e maravilhoso e oportunidade para conhecer um dos mais requisitados museus da cidade. Imperdível.

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