A necessária desnaturalização da pandemia

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“Estamos perdendo a batalha contra o vírus. Essa é a realidade. O vírus está vencendo a guerra”. Essa fala direta e emocionada foi feita pelo médico e cientista Dimas Covas na terça-feira desta semana (19/05) ao participar da coletiva de imprensa que o Governo Paulista vem fazendo todos os dias para comunicar as medidas de controleda pandemia. Co­vas é professor da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, atual diretor do Instituto Butantã, e coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo.

Ao me dar conta da gravidade de tal pronunciamento, fiquei arrasado. Após 70 dias numa quarentena convicta, meus esforços individuais parecem ter sido feitos em vão. O dr. Dimas com a voz embargada ainda suplicou à população paulista que fizesse o esforço de se manter em casa. Sim, meus amigos, são súplicas sendo feitas por aqueles que vêm trabalhando herculea­mente no front: enfermeiros, assistentes de enfermaria, médicos, agentes de limpeza nos hospitais, cientistas e gestores públicos da área da Saúde.

Os programas de ajuda financeira lançados pelo governo federal com aprovação do Parlamento não têm obtido o resultado esperado na ponta. O orçamento de guerra está entrincheirado. Empresas, trabalhadores e desempregados têm tido dificuldades para acessar os recursos. São duas as principais causas: exigências criadas pelos bancosprivados e públicos dificultando o crédito e desorganização do Ministério da Cidadania com relação ao cadastro de pessoas físicas que têm direito às ajudas financeiras.

O socorro econômico não chegando e a quarentena se prolongando, obviamente a pressão pela reabertura dos serviços e comércios aumenta. Pois bem. Se estamos numa guerra eem estado de calamidade pública, procedi­mentos criativos, corajosos e eficazes devem ser estabelecidos. A meu ver, os governos deveriam estruturar mecanismo urgente de socorro às empresas por meio dos órgãos estaduais e municipais fazendários, prescindindo da ação dos bancos. Secretarias estaduais e municipais de Fazenda exerceriam a função dos bancos. O dinheiro é dos brasileiros e a garantia somos nós.

O Estado sempre deve atuar como o guardião da sociedade. Ele possui tecido institucional extenso o suficiente para alavancar ações que venham poupar-nos de uma catástrofe incomensurável. Me refiro à situ­ação dramática e traumática ainda maiores do que aquela que estamos vivenciando. Montanhas de corpos em calçadas, por exemplo. Aliás, vai ficando muito claro o preço que estamos pagando pelo desmantelamen­to da estrutura estatal a partir de políticas neoliberais. Uma caracterís­tica que marca o neoliberalismo é o seu descompromisso com a vida. Combalido pelo corte de gastos, ainda assim, o Sistema Único de Saúde está salvando milhares de brasileiros e socorrendo o país em sua pior crise sanitária desde Oswaldo Cruz.

Nos últimos anos temos percebido que o país não consegue resolver nenhum de seus grandes problemas e estes passam a fazer parte da normalidade nacional. Os indicadores de pobreza e de desmatamento, por exemplo, escalam curvas ascendentes. E isso que não pode acontecer com a epidemia do novo coronavírus no Brasil. Não podemos consi­derar natural conviver com 1.000 perdas diárias de brasileiros por esta causa-mortis. É necessário estarmos cônscios de que estamosem meio à uma guerra e precisamos convocar o que temos de melhor em nós para combater o inimigo. Cada morte evitada é uma vitória.

Todas as noites, antes de dormir, pense com compaixão nas pessoas em hospitais com dores e com dificuldade para respirar. Em seguida res­pire profundamente e imagine o que é o seu melhor. Todas as manhãs, antes de sair da cama, pense naqueles que trabalham nesses hospitais, no esforço que fazem para salvar vidas. Em seguida, respire profundamente e imagine o que é o seu melhor.

Nosso país, dentre 38 nações avaliadas, é o segundo colocado no ranking do Índice de Percepção Equivocada, ou seja,expressamos opini­õese agimos distantes da realidade. Arriar a máscara para baixo do rosto é colocar em risco todos os compatriotas de luta. Não usar a máscara é ser idiota. Arriar a máscara é teu maior exemplo de descolamento da re­alidade. Não há culpados. Há responsáveis. Há atores. Há protagonistas da história. Histórias vitoriosas e histórias de fracasso e derrota.