A nova “Altino Arantes” (sempre da Dª Sinhá)

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João Augusto da Palma * 
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Entre pelo Anexo (sobrado espelhado) construído na divisa do terreno (lateral esquerda e fundos). Nada a pagar. Caminhe pelo seu “calçadão” (jardim) e escolha: conhecer o Anexo (da nova Biblioteca), bater papo no barzinho ou subir as escadas da casa de Dª Sinhá, pelo lado que ela preferia (a frente está fechada, ela abria só para visitas especiais).
A impressão é positiva, pela qualidade de tudo e pela acessibilidade. Mas, causa opiniões diferentes, até pelos detalhes do projeto. 
O Anexo reúne só uns duzentos livros, de autores diversos, como Fernando Gabeira. Romances, contos, sem obras técnicas (didáticas). Os milhares do acervo da Altino Arantes não se vê mais. Algumas obras doadas para a Penitenciária de Jardinópolis. E as outras? Não restauradas.
Atenciosos, os funcionários esclarecem que vão comprar os novos livros. Poucas estantes (pequenas), espaço reservado é mínimo.A característica de biblioteca circulante não existe, a leitura deve ser ali (na casa de Dª Sinhá, nos antigos quartos e salas). 
Auditório para palestras (100 pessoas) surgiu na demolição das garagens e moradia do caseiro (Jose Ferrone) e da cozinheira de Dª Sinhá (acabaram os deliciosos “bolinhos de chuva” da Dª. Filó, preferidos pela patroa para o café da tarde).
O jardim foi refeito; as jaboticabeiras centenárias se conservaram: eram frutíferas quase o ano todo.  
Visitantes são jovens, se cadastram na entrada do Anexo (o arquivo dos sócios, que ali estudaram e se formaram com o acervo da Altino Arantes, onde está? É memória da cidade!).Pais estão levando os filhos (“quero que conheçam onde estudei”).
A casa da benfeitora (e de seu marido Cel. Quito Junqueira) está moderna, climatizada (ar condicionado), paredes com massa corrida e pintadas, com detalhes (recortes) mostrando as originais (visitantes perguntam: “por que não restauradas, como eram?”)
Esculturas (mármore), pisos, revestimentos, tetos, escada central e móveis (madeira nobre entalhada) restaurados. Já as pedras das paredes externas ganharam pintura (verniz): não eram assim em 1930.
Vitrais (artísticos) estão conservados, até o da escada central que retrata a antiga Usina Junqueira, além da Sala de Banho da Dª Sinhá (frente para a Praça XV). 
O quarto do casal (andar superior, canto esquerdo ao olhara frente da casa) era o cômodo nº 7: esta etiqueta está no painel elétrico, na ex-sala das refeições (no térreo). Assim ela chamava os serviçais. O telefone manual (atrás da porta) foi…
O sanitário do andar superior (hoje todos usam) é o mesmo que servia aos hóspedes de Dª Sinhá. O quarto-escritório do Juiz Valentim Carrion está fechado (ali escreveu a sua C.L.T.).
Os lustres são os originais, menos o do Jardim de Inverno (abaixo do quarto de Dª Sinhá).
Qual o destino do elevador original, de madeira, importado após 1ª Guerra Mundial? E os livros de braile (de papelão cinza) que os deficientes hoje não conhecem? Nem amostras ficaram. 
Por que o escritório de Dª Sinhá e do Cel. Quito deixou de ter o nome do professor que idealizou, montou e dirigiu a Altino Arantes? (A placa na porta foi retirada. Cassaram a homenagem!)
Anos de abandono (janelas caindo, sem livros novos), hoje a obra é valiosa.
À  Sinhá, todas as homenagens. Mas por que tirar o nome do seu maior conselheiro? Que ela respeitava, considerava.
A “Altino Arantes” é parte da memória desta cidade.

* Advogado especialista (USP) em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, professor e escritor 

 

 

 

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