A panaceia do home office

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Desde a decretação da pandemia pela OMS, em 11/03/2020, todos os países adotaram algum nível de quarentena e, como decorrência, as pessoas tiveram que trabalhar em esquema de home office. Jamais tantas pessoas utilizaram tal forma de produzir no mundo. A questão que trago é eventual manutenção universal do home office depois da pandemia.

A humanidade trabalha desde tempos imemoriais. Acredito, aliás, que foi o trabalho que fez o homem. Não tivéssemos evoluído, de modo a andar em posição ereta, aprender a utilizar pedras, metais e a dominar o fogo, ainda estaríamos viven­do na copa das árvores.

Em alguma parte de nós, talvez integrando o DNA, seguramente está escrito algo como “não existe almoço grátis”. Tanto que os primeiros primatas que desceram às savanas, correndo o risco de virarem presas fáceis, o fizeram em razão desta má­xima. E obraram em grupo.
Entretanto, parte de nós vive se esquecendo disso. É daí que nascem ideias estapafúrdias. A mais recente, espécie do gênero novo normal, é justamente o home office.

Há alguns tipos de trabalho que dispensam totalmente a presença física, quer dizer permitem uma certa mobilidade. Essas profissões inclusive serão a esmaga­dora maioria no futuro (breve). Porém, isso não significa ficar trancado em casa. O contato com outros seres humanos é indispensável. Disso depende boa parte de nossa criatividade e inovação – além de fazer um bem danado para a estabilidade psicológica (e mais produtividade).

Steve Jobs, há muitos anos, já tinha pensado nisso, e projetou a sede da Pixar com um único banheiro central para que seus funcionários pudessem se encontrar ao longo do dia. Além da interação entre trabalhadores, é fundamental ter um bom ambiente de trabalho e uma rotina. Isso ajuda o cérebro a se concentrar e a produzir. Em casa, atividades mil tiram nosso foco (e a produtividade).

Tanto que empresas de renome, como é o caso da JP Morgan (maior banco dos EUA), viu a produtividade de seus trabalhadores despencar. Aliás, o Estado Brasileiro foi incapaz de produzir em home office: repartições fecharam e ninguém sequer atendia o telefone, algo assustador! Vendo a situação do INSS na TV concluímos que o servidor público deve estar onde se espera: servindo ao público.

Veja, nós trabalhamos durante o dia porque a lâmpada elétrica existe há apenas 140 anos. Mesmo havendo velas e dispositivos a gás, convinha que o trabalho ocorresse enquanto há luz solar. Essa convenção, portanto, é milenar. “Ah, mas eu produzo melhor à noite”! À noite as pessoas estão em casa descansando amigo (ou fazendo coisas mais legais que trabalhar). Não adianta reinventar a roda: é produ­cente que haja um horário comercial.

Trabalhar não é legal. Trabalhar, em qualquer profissão que seja, cansa. Bom mesmo é gastar seu tempo com sua família, seus amigos, seus animais de estimação, viajar, conhecer pessoas etc. Então, levar trabalho para casa deveria ser exceção, afinal, fazendo isso você está levando seus problemas pra casa. Creia-me: não vai dar certo a longo prazo!

Quanto mais online nos tornamos, mais escravizados somos. Hoje é preciso atender ao telefone em qualquer horário e responder infinitas mensagens de WhatsApp justa­mente naquele momento em que você acha que poderia estar descansando, mas, que seu chefe escolheu para ser a hora mais produtiva dele. Multiplique isso pela quantidade de chefes e clientes e está revogada a Lei Áurea pra você. Pior: tudo se tornou urgente, afinal, você está sempre “disponível” no seu home office. Pense nisso…

Seus pais acordavam cedo, iam para o trabalho e ao cair da noite estavam de volta em casa, reclinando-se no sofá comprado na Mesbla e tomando uma latinha de An­tarctica. No dia seguinte, a mesma coisa. “Credo!”, diriam as atuais gerações –“No meu trabalho eu posso cumprir meu horário como quiser, tenho uma rede para descansar depois das refeições, videogame, mesa de ping-pong, e até um chopinho que a empresa fornece durante o happy hour”.

Muito bacana! Mas, verifique que, na verdade, ao invés de deixar o ambiente de trabalho e retomar sua liberdade, para fazer tudo o que quiser sem ser incomodado, os profissionais passaram a ter que se divertir durante o trabalho, pelo simples fato de que não há mais tempo livre!!! E o mais triste: seus pais ou avós, com a sua idade, já tinham carro, casa e até um valor guardado para a aposentadoria. E você? Adianta ser tão desco­lado, ter tanta “liberdade” e, no final das contas, nem patrimônio ter?

Inexoravelmente o mundo será um lugar mais virtual. Eu sei disso leitor! Ocorre que entre saber disso e glorificar o home office vai muita distância. Nós “trabalhamos para viver” e não “vivemos para trabalhar”. O descanso e o lar são um templo! Fica aqui esse conselho.

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