Sócrates morava aqui em Ribeirão Preto quando decidiu ir pra Sampa e especializar-se em medicina esportiva. Pensava seriamente em investir na carreira de técnico de futebol e sonhava em treinar seu Corinthians. Vivia comentando que era um profissional superca­pacitado para tal, por tudo que vivera como atleta, com a vantagem de ser médico.

Conhecia todas as manhas pela convivência com grandes técni­cos. Quando o jogador sofria uma contusão, ele antevia o diagnósti­co. Na capital, seu faro de cervejeiro o levou a conhecer o bar do Ser­ginho Leite, humorista que aos domingos participava do Domingão do Faustão. Dizia sempre pro Serginho: “Qualquer dia vou trazer aqui meu parceiro Buenão pra dar aquela canja”.

Sempre que chegava no bar, Serginho Leite o enquadrava: “Pô! Só­crates, e o Buenão?” Bem, o tempo passou. Eis que Rita Lee o convidou para o lançamento de seu novo CD, que seria na casa de shows “Via Funchal”, e lá fomos nós: amigos, filhos e irmãos. Estávamos em 22 pessoas aplaudindo a artista, o show acabou tipo uma da madrugada, Magrão convidou todo mundo para o bar do Serginho Leite.

Foi aquela caravana de carros seguindo o Civic dele. O humoris­ta veio de encontro com o Doutor, que foi falando: “Serginho, hoje eu trouxe o…” Serginho gritou: “O Buenão!!!” De cara arrastou-me para o pequeno palco, pediu pra esposa acomodar nossa galera, precisou espremer as mesas, mas deu certo. Ele jogou um violão na minha mão e pegou outro com sete cordas e logo me intimou: “Buenão, cante ‘Espelho’”.

Adoro cantar essa música, considero uma obra-prima, melodia e letra se completam, ela conta a história de quando João Nogueira perdeu seu pai. Ele fez a música e seu parceiro, o poeta e letrista Paulo Cesar Pinheiro, a letra. Era a minha primeira vez cantando em um bar em Sampa, para um público que não me conhecia, mas soltei o gogó e a resposta foi maravilhosa.

Serginho Leite falou: “Cante outra do João Nogueira”. Fui cantan­do e vibrando com ele fazendo os bordões no seu violão sete cordas. Desfilei parte do repertório do João, quando o garçom trouxe um pedido. “Por favor, repita ‘Espelho’, mesa 36”. O ambiente estava meio que na penumbra, difícil reconhecer as pessoas, olhei pro Ser­ginho e comentei: “Parceiro, estão pedindo ‘Espelho’ novamente.”

Ele, rindo, disse: “Se eu fosse você cantava”. Apontou pra mesa 36 e disse: “Veja só quem está pedindo”. Eduardo Gudine e o maestro Téo de Barros. “Esses caras estão aqui?”, perguntei, assustado. “Estão, Buenão”. O primeiro compôs “Verde”, o segundo “Disparada” em parceria dom Geraldo Vandré e imortalizada na voz de Jair Rodrigues.

Levei um tranco, olhei pra eles que me acenaram, respondi, senti aumentar minha responsa e a noite seguiu maravilhosa. Saímos do bar com o sol nascendo, mas voltamos lá pelas três da tarde pra uma feijoada com samba e o bicho pegou. Lá estavam Jair Rodrigues com a esposa e a filha Luciana, que ainda não era famosa.

Muitos artistas, cantores da noite dando canjas e eu entrei no meio, tive a honra de dividir um samba com Jair Rodrigues. Nem sei como saímos dali, só sei que os frequentadores da noite estavam chegando. Tempos depois, Magrão voltou ao bar, mas o dono era outro. Serginho sumiu.

Certa noite, estávamos no Empório Brasília, ele ligou pro Magrão dizendo que havia quebrado, pois era artista, não sabia ser dono de bar, não cobrava de cantores, artistas, confiava no fiado e que estava escondi­do de credores em Ilhabela. Pediu para que fossemos lá visitá-lo.

Dias depois sua esposa ligou dando a triste notícia, Serginho se mandou. Trago na memória a imagem deste ser humano de primei­ra, seu enorme sorriso e seu jeito bonachão. Ainda ouço o som dos bordões do seu violão enfeitando a melodia quando canto “Espelho”.

Um baita braço amigos, e sexta conto mais.