Numa das passagens de Rolando Boldrin aqui por Ribeirão Preto, Sócrates aproveitou e o entrevistou para seu programa na TV Thathi, o “Papo com o Doutor”. Na época, acontecia a Feira do livro, o Pinguim original ainda existia, e hoje em seu lugar está uma loja de material esportivo. Foi ali que passamos a tarde toda, invadimos a noite rindo pra dedéu dos causos contados por ele e encharcando o verbo com cremosos e deliciosos chopes.

Boldrin contou que, ainda adolescente, deixou a sua São Joa­quim da Barra, passando a residir em São Paulo, onde iria tentar a carreira artística. Chegou a idade de servir o Exército e lá foi ele se apresentar num batalhão no Centro de São Paulo. Um sargento o acompanhava e, ao passarem por uma cela enorme, onde recrutas indisciplinados eram punidos com prisão temporária, lá de dentro ecoou uma voz em tom ameaçador.

“Ô, alemão”. Boldrin percebeu que era com ele e olhou. O cara continuou: “Me dá um cigarro”. Ele devolveu: “Não fumo”. E o preso, mais nervoso ainda, mandou essa: “Eu não perguntei se você fuma, eu te falei que quero um cigarro, senão, quando eu sair daqui vou te arrebentar de porradas”. Boldrin, caboclo do interior, muito humil­de, tremeu de medo.

O sargento falou: “Olha, recruta, esse ai é o Tonelada, ele está preso porque se meteu em confusão, mas logo vai sair, acho melhor você ir até o bar da esquina e comprar um maço de cigarros pra ele”. Boldrin ouviu os conselhos de seu superior e a vida seguiu no quartel. Não viu mais o Tonelada.

Passou algum tempo e, passeando pela cidade, Boldrin deu de cara com cartazes colados em postes anunciando grande show com o sambista “Germano Mathias”. Ao ver a foto do cantor, levou um tranco: era o famigerado Tonelada. Já no quartel, comentou com o sargento, que disse: É o próprio, o Tonelada só anda com maloquei­ros e é metido a artista”. Surpreso ao deixar seu superior, Rolando perguntava pra si mesmo como é que pode?

Missão cumprida com o Exército, Rolando, aos poucos, foi realizan­do seu sonho. Tornou-se cantor, artista de novelas e teatro e uma noite, na TV Tupi, cruzou com Tonelada. Opa! Germano Mathias. Quando Rolando contou ao sambista que era o alemão do cigarro, os dois se abraçaram, riram muito e tornaram-se grandes amigos.

Naquela mesa do Pinguim, Rolando emendava um causo atrás do outro e eu só guardando tudo na gaveta da minha memória. Ele contou que em São Joaquim da Barra tinha um velho barbeiro, seu Libório, que afiava sua navalha em uma surrada tábua e numa correia de couro gros­so. Os fazendeiros e comerciantes da cidade e região eram seus clientes.

Um belo dia, um viajante passando por ali e resolveu fazer a bar­ba. Ficou aguardando sua vez e observou que o velho profissional não esterilizava sua navalha, e que ela fez pequeno corte no rosto de um freguês, sujando-a de sangue. Em seguida, seu Libório a afiou na madeira e no couro e disse: “O próximo”.

O viajante sentou naquela antiga cadeira e falou: “O senhor não esterilizou a navalha, ela está cheia de micróbios”. O velho barbeiro retrucou: “Faz 50 anos que faço barba assim e quando passo a navalha na madeira e no couro, nenhum micróbio resiste, morre tudinho”.

O velho barbeiro mantinha uma bolinha do tamanho de uma bola de pingue-pongue num copo com água em frente ao espelho. Um fre­guês curioso perguntou o motivo, e ele respondeu que era pra escanho­ar rostos com muitas rugas. “Peço pro freguês com a língua colocá-la de um lado, daí passo a navalha, depois do outro e o rosto do caboclo fica lisinho.” Intrigado, o freguês enquadrou o seu Libório, que não perdeu o tom. “Mas nunca aconteceu de alguém engolir?” E o barbeiro respondeu: “Já sim, muitas vezes, mas no outro dia eles ‘devorve’.”
Rolando Boldrin, você é grande meu irmão.

Sexta conto mais.