Corria o ano de 1917 e Ribeirão era pouco mais que uma província, cuja vida girava em torno do centro da cidade. Recém-inaugurada, a nova sede da Sociedade Legião Brasileira instalara-se na esquina da Visconde de Inhaúma com São Sebastião, a poucos quarteirões da Praça XV, então coração da cidade.

Nessa época, alguns cidadãos afeitos às letras e à cultura costumavam se reunir na Legião, que existia desde 1903, fundada pelo Padre Euclides Gomes Carneiro e que nascera com o sonho de criar um museu e uma biblioteca. A biblioteca logo se tornou realidade com um acervo doado pelo próprio padre e instalada no mesmo prédio.

Várias noites por semana, homens envergando terno e chapéu, deixavam as esposas em casa e seguiam rumo à Legião Brasileira, onde discutiam política, jogavam torrinha, adquiriam cultura e – por último mas não menos importante- se inteiravam das últimas notícias e fofocas locais.

Entre eles, brilhavam intelectuais como Meira Júnior e Camilo de Matos que nesses encontros exclusivamente masculinos partilhavam com seus pares um profundo conhecimento acerca do país, da economia e dos clássicos da literatura.

Aos poucos a Legião Brasileira foi se tornando parte importante da cidade. Além de engordar seu acervo com obras raras e clássicas, o local chegou a ser abrigo e hospital improvisado durante uma chuva de pedras que varreu a cidade; quartel-general da Revolução Constitucionalista em 1932 e nesse mesmo ano abrigou a sede da PRA-7, a primeira emissora de Ribeirão Preto e uma das pioneiras do Brasil.

Olavo Bilac, Monteiro Lobato, Cassiano Ricardo, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e Coelho Neto, entre outros grandes escritores, além de povoar suas estantes, visitaram o espaço que se tornara uma referência cultural. Sem contar Altino Arantes, Armando Álvares Penteado, Eliseu Guilherme, Procópio Ferreira e Santos Dumont que costumavam participar das muitas atividades culturais da Biblioteca.

Demolida em 1965 para a construção do Edifício Padre Euclides, a entidade ganhou, em troca da cessão do terreno, o 1º e o 2º andares para a Biblioteca e a SLB. E durante toda sua existência foi mantida com contribuições de cidadãos e o aluguel das salas do 2º andar.

Durante anos, o espaço sediou também a Oficina Cultural Candido Portinari, uma das unidades do projeto do governo estadual. Nesse  período, a Oficina assumiu as despesas do espaço e colaborou na recuperação do prestígio da entidade por meio de atividades de formação e difusão culturais.

Então, houve uma espécie de renascimento do local, com a afluência de muita gente que ia em busca das atividades da Oficina. Mas como tudo que é bom dura pouco, um belo dia o governo estadual deu por encerradas as atividades das Oficinas Culturais do interior, pondo abaixo um espaço fundamental de produção e aquisição de cultura.

Aí entra na história a figura miúda de uma cabo-verdiana arretada, chamada Fatú, simples assim. Depois de dirigir a Oficina e ver de repente todos os projetos abandonados, Fatú assumiu a direção do Conselho da Biblioteca e tocou em frente com um entusiasmo e uma tenacidade emocionantes.

Durante um ano, a Biblioteca contou com o suporte financeiro de uma Fundação local. Depois disso, as dificuldades aumentaram. Apoiada por parceiros e voluntários, Fatu continua tentando manter as portas abertas. As iniciativas tem sido muitas -encontros culturais, cursos, visitas de nomes internacionais da literatura como Mia Couto, grupos de leitura, lançamentos, enfim lufadas de oxigênio para resistir, resistir e resistir.

Um projeto de cooperação financeira com a iniciativa privada é mais uma tentativa de sobrevivência para que esse patrimônio cultural da cidade não desapareça como já desapareceram ou estão desaparecendo residências primorosas da época do café, museus com acervos valiosos, teatros, grupos culturais e iniciativas de alguns cidadãos que insistem e lutam, apesar do descaso da cidade em relação aos seus bens não tangíveis.

História, memória e cultura são os elementos que fazem de uma cidade mais que um amontoado de edifícios, shoppings e condomínios. São os ingredientes indispensáveis à construção de cidadania, identidade e maioridade entre seus habitantes.

Então, vamos lá, gente. Vamos impedir que a mais antiga referência cultural da cidade feche as portas.

 

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