Cadáveres na contabilidade da Igreja…

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Um dos maiores pesquisadores da História de Ribeirão foi o saudoso Pedro Miranda. Baiano de nascimento, chegou a Ribeirão nos anos 40, trabalhou no Arquivo da Cúria em São Paulo, no Museu Histórico de Ordem Geral Plínio Travassos dos Santos e no Arquivo Público e Histórico de Ribei­rão Preto. Deixou várias publicações. Pude conviver com ele nos seus últimos anos de vida, quando eu fazia minha pesquisa de mestrado e recebi suas preciosas pistas e indicações que foram fundamentais para o meu trabalho. Ele faleceu em 1997.

Quando eu exercia a vereança na Câmara de Ribeirão, tive a honra de ser o autor da Lei que outorgou valor histórico e cultural para o nosso municí­pio, do acervo de documentos escritos, inclusive livros e jornais, fotográficos e audiovisuais que pertenceram a Pedro Miranda. Acompanhei bem de perto todo o levantamento desse acervo e sua transferência para o Arquivo Históri­co. E qual foi a nossa surpresa quando encontramos ali, meio perdido,um dos documentos mais preciosos para a nossa história. Um verdadeiro “achado”!
Tratava-sede um livro de contabilidade, mas um livro todo especial. Na maior parte de suas páginas de papel “al masso” Gio Magnani, encontramos registros de sepultamentos realizados no cemitério da antiga capela de São Sebastião do Ribeirão Preto, localizada exatamente onde hoje está a fonte luminosa da Praça XV. O cemitério, aos fundos da igreja, localizava-se entre a fonte luminosa e onde hoje está o Theatro Pedro II. Estão ali anotados 284 sepultamentos realizados entre 19/10/1867 e 14/06/1870.

Mas o livro havia servido também parao registro de receitas e despesas da construção da capela de São Sebastião. Entram na receita doações dos fiéis, como dois garrotes no valor de 25$000 (vinte e cinco mil réis), 8 frangos no valor de $700 (setecentos réis), duas açucenas, um par de brincos e um alfinete de ouro, um carro (de boi) de milho do Sr. Francisco Roiz de Faria e um capado arrematado por 10$500 (dez mil e quinhentos réis). Essas ofertas eram leiloadas e todo o dinheiro apurado era empregado na construção da capela. Ofertas generosas de fazer inveja às quermesses do nosso querido Padre Chicão!

Conclusão lógica é que a cobrança dos sepultamentos feitas ainda duran­te a construção da capela serviu para custear a sua própria construção. Isso fica claro com os frequentes acertos de conta entre o fabriqueiro e o vigário em meio aos registros de sepultamento. É bom que se diga que cada sepulta­mento custava 3$000 (três mil réis) e somente os pobres não pagavam.
Essas anotações contábeis iniciam-se em 12/02/1865 com a seguinte declaração: “Peguei da venda do Sr. José Antônio Pereira 700 pregos para a obra da igreja”. As anotações encerram-se em 10/08/1870. As despesas referem-se claramente à obra de construção da capela, cujo oficial respon­sável foi o Sr. Jerônimo Pinto da Silva. A maior parte dos pagamentos a esse oficial vem assinada por Bernardo Alves Pereira, o novo fabriqueiro nomeado após o assassinato de Manoel Fernandes do Nascimento, sobre o qual já escrevemos aqui.

Mas voltemos aos mortos. Entre eles, encontramos figuras conhecidas como José Borges da Costa, deixando viúva sua 4ª esposa, Leonor Nogueira Terra. Ele faleceu por “inflamação” com 80 anos em 18/12/1867; Antônio Soares de Castilho, rico comerciante do arraial, morto aos 66 anos de “hidro­fisia”, e José Mateus dos Reis, morto aos 53 anos, de “inflamação do fígado”. Este José Mateus é o mesmo que fez em 1845 a frustrada tentativa de doação de um terreno para a construção da capela no bairro das Palmeiras. Chama a atenção a idade de alguns falecidos naquela época: Antônio Martins com 115 anos, e Manoel de Oliveira Pontes com 124 anos. Mas a maior parte era de crianças e recém-nascidos.

Uma pesquisa mais apurada pode até demonstrar o custo exato da cons­trução da capela de São Sebastião. Os dados dos registros de óbitos poderão levar a interessantes informações na área da Demografia Histórica. É possível acompanhar os primeiros passos de Ribeirão Preto e de sua população ori­ginária – seus gostos, seus usos, seus objetos, seu imaginário. É até possível perceber um certo vacilo para se fixar o nome do arraial que então nascia: até 1865, escrevia-se ainda São Sebastião da Barra do Retiro. A partir de 1866 é que parece ter se fixado São Sebastião do Ribeirão Preto.