Com a generalização dos descobrimentos geográficos no século XVI, a cartografia náuti­ca, por razões técnicas, entrou em declínio, ao mesmo tempo que maiorquinos e portulanos buscaram confeccionar uma nova cartografia com rigoroso sentido científico, a serviço da navegação . Entretanto, ao mesmo tempo, a tendência tradicional, não portulana, e portanto sem a preocupação com a precisão científica, de desenhar mapas no estilo medieval, mas, sim, com olhos voltados ao simbólico e decorativo, lutava para sobreviver. O que isso configura? A caracterização de um período de transição no qual os modos tradicionais de representar a Terra convivem tanto com a ciência quanto com a individualidade da mão do artífice de modo híbrido. Em outras palavras, trata-se de uma cartografia em trânsito histórico da época medie­val para a renascentista.

Em 1487, a pedido do rei de Portugal, um novo planisfério, com as contribuições das descobertas dos navegantes portugueses, é elaborado por um do últimos monges cartógrafos da Idade Média, frei Mauro, auxiliado por outro cartógrafo, Andrea Bianco. Para fazê-lo, frei Mauro chegou a transformar seu mosteiro em oficina para construção de mapas. Porém, o mérito maior deste trabalho foi o de findar, de uma vez por todas, com o esquema circular de representação, o qual era preso à crença religiosa de Jerusalém ser o centro geométrico do mundo. Ao findá-lo, o humanismo conseguia, finalmente, separar o trabalho cartográfico da influência religiosa. Nessa mesma época, a Europa vivenciava o renascimento da obra de Ptolomeu por duas vias: primeiro, pelas traduções espanholas das grandes obras clássicas da literatura árabe e, segundo, pelos monges bizantinos que, fugindo da ameaça turca, levaram consigo cópias da “Geografia” do mesmo, viabilizando que estas fossem traduzidas do grego para o latim, idioma da cultura medieval. Com o passar do tempo, à “Geografia” foram inse­ridos dados das novas descobertas da cartografia náutica. Um exemplo? A inserção, em 1427, do mapa de Claudius Clavus, retratando os países nórdicos, no qual a Groenlândia surgia ligada à Europa.

Durante a Renascença, muitas outras edições da obra ptolomaica foram produzidas. Vi­cenza e Bolonha, na Europa, e Ulm, na Alemanha, bem como, Roma e Basiléia, foram, entre outros, locais onde o conhecimento de Ptolomeu contagiou a todos, garantindo sua influência na cartografia que o seguiu até os primeiros atlas da idade moderna. Nas palavras de especia­listas, “não eclipsando a fama de quem gravou na consciência dos homens de saber europeus, e para sempre, a ideia de que o mundo é esférico, abrindo novos rumos à especulação que, a partir daí, iria tomar outros caminhos”. Com o surgimento da imprensa na metade do século XV, a cartografia deixa de ser atividade de grupos minoritários recolhidos em monastérios ou em oficinas de navieiros e armadores e conquista o espaço e o olhar europeu: era a primeira vez que estes viam a obra ptolomaica. Impressos, os mapas se tornavam mais apresentáveis e inteligíveis, sem as deformações de riscos sobre riscos ocasionadas pelos copistas. A partir de 1500, as edições dos antigos manuscritos vão cedendo espaço às obras ilustradas com mapas. Caso, por exemplo, do “Rudimentum Novitiorum” (Lubeck, 1475), “Isolario”, de Bartolomeo delli Sonetti (Veneza, 1485) e “Margarita Philosophica”, de Gregor Reisch (1503).

Sucesso editorial da época, eram recebidas com entusiasmo pelo público, encantados com suas ilustrações de planisférios, mapas regionais e urbanos, esquemas geográficos e diversas informações associadas, o que levou alguns mapas a serem gravados em pranchas de madeira e depois impressos, tornando-se best-sellers na época.

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