Cemitérios da cidade estão diferentes: portões fechados, barram todos. Amigo, nosso, resolveu ir ao da Saudade. Logo na calçada topou um funcionário (porque usava crachá), todo prestativo: “só abrimos para sepultar” e arrematou “o senhor quer entrar? Está na hora ?” A resposta foi imediata: “não, não, obrigado. Não chegou a hora – …sai pra lá, assombra­ção!” E sumiu. O funcionário acha que conversou com uma alma perdida…

O pretenso visitante – assim era, pelo menos até aquele momento, deu volta no quarteirão e pelos lados da Rua Luiz Barreto encontrou um portão semiaberto, olhou para os lados e, desconfiado, entrou de mansinho. Nas ruas internas ninguém, muito limpas, latões de lixo vazios, pintura nova nas guias e árvores, alguns bancos quebrados pedindo reparo (pra quem, se os funcionários estão lá fora?), sozinho com as milhares de almas naquele silêncio só interrompido pelos pardais matinais.

Ainda assustado com a recepção na calçada, o visitante caminhou por entre “respeitosos e dignos habitantes”, como o daquela moradia eterna (granito preto) com o busto (perfil) do ex-prefeito e deputado Costabile Romano, falecido há 55 anos na Via Anhanguera. Alguns jazigos mostrando diferen­ças, enquanto tantos esquecidos, em carneiras/túmulos com aparência de abandono. Velas não, nem flores (são caras). Cuidar tem custo. Onde estão os lavadores mensalistas?

A pandemia também chegou lá, falta trabalho autônomo, além das obras de reformas ou construções de capelas. A crise atinge a lembrança à memória dos mortos. Não se colocaram placas e outros informes educativos, procurando sensibilizar as famílias para preservarem a imagem (em vida) dos seus que ali repousam. É atividade pedagógica de mínimo custo à administração pública municipal, faz parte do dever do ente que se obriga zelar pelos cemitérios da comunidade. Prefei­tura e Câmara de Vereadores (esta não fiscaliza, nem legisla a respeito) falham. Isso não é importante?

Apreensivo, temendo a chegada daquele funcionário (da calçada…) que, na sua mente, continuava ameaçando sepul­tá-lo (vivo ?), o visitante não conseguiu completar suas “ave maria” (“pai nosso” nem tentou); resolveu então sair pelo mesmo portão, acreditando que evitaria ficar preso no Cemi­tério. Mas já o encontrou fechado, só esperando passarem a corrente com cadeado; por sorte, deu tempo, conseguiu sair sem cair nas carneiras abertas driblando latas de concreto dos sepultadores.

O visitante vai pedir agendamento prévio das visitas, como para vacinar napandemia (veio pra ficar? Pessimismo ou realidade?). Certo é que dela tiramos aprendizado: cui­dados (sem aglomerações) em ambientes coletivos, higiene pessoal com álcool gel nos contatos (balcões, guichês, apoio nas escadas, carrinhos de supermercados) e intenso uso de máscaras – estas vão se incorporando aos nossos hábitos, como fazem os orientais em locais fechados e abertos. A pan­demia nos impõe regras, invadindo nossas vidas por todas as formas, meios e onde estivermos, como na visitação aos “campos santos”. Inovam as práticas culturais, mas cuidado ao entrar no cemitério: garanta sua saída (orando, pelo menos).