Coragem para sair da sombra

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professor

Pessoas em todo o planeta dedicaram parte de seu tempo para assistir à posse de Joe Biden, 46º presidente dos Estados Unidos da América e sua vice Kamala Harris. A festa foi diferente não só pelas medidas de distanciamen­to social, mas principalmente pelo forte esquema de segurança para evitar novos incidentes como o ataque ao Capitólio.

Um dos fatos marcantes foi a presença dos três ex-presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Também a ausência justifica­da de Jimmy Carter, de 96 anos de idade, que sobreviveu a um câncer no cérebro em 2019 e permanece isolado em decorrência da pandemia do novo coronavírus, mas fez questão de ligar para Biden e parabenizá-lo. Ao final da cerimônia os três gravaram um vídeo onde manifestam a importância da democracia e da transição pacífica.

Clinton falou sobre um novo começo: “Estou feliz que você está aí e dese­jo sorte. Você falou por nós hoje, agora você vai nos liderar e nós estamos prontos para marchar com você”. Obama recordou sua posse e da presença de Bush, seu rival político e antecessor: “Foi um lembrete de que nós pode­mos discordar de maneira feroz e, ainda assim, reconhecer a humanidade um no outro e que, como americanos, temos mais em comum do que aquilo que nos separa”. Bush registrou que a presença dos três juntos, falando sobre transmissão pacífica é a prova da “integridade institucional” do país.

Esse tipo de encontro não é novidade eem outubro de 2017 foi maior, pois os cinco ex-presidentes ainda vivos se reuniram para um concerto no Texas, no evento One America Appeal, que objetivava arrecadar fundos para as vítimas dos furacões Harvey, Irma e Maria. Trump, presidente em exercí­cio, não foi e apenas gravou um vídeo.

A cerimônia foi cheia de simbolismo. As cores das roupas, o protagonis­mo de afro-americanos e hispânicos, as canções e os discursos retrataram o desejo do novo governo em resgatar a união, o conceito original de Estado democrático de direito, ou seja, a garantia das liberdades civis (direitos hu­manos) e o estabelecimento de uma proteção jurídica que preserve as garan­tias fundamentais. Era necessário reafirmar que eles realmente são referência democrática e que o tal “sonho americano” não é apenas marketing.

Tudo isso por culpa do péssimo exemplo do ex-presidente Donald Trump que resolveu questionar o resultados das eleições, incentivar a revolta popular contra as instituições e não participar da solenidade de posse. Além de sair pela porta do fundo, deixou um país dividido e cheio de ódio. Para piorar, em seu discurso de despedida, fez um balanço mentiroso de sua ges­tão. Sua visão de mundo é doentia e distorcida, mas encontra eco em milhões de compatriotas e em algumas lideranças estrangeiras, inclusive brasileiras.

Os estadunidenses conseguiram se livrar da sombra que tentou ofuscar a luz da liberdade e da democracia. Isso só foi possível porque adotam o velho ensinamento de Montesquieu, de um sistema onde os poderes do Estado são bem divididos. O Poder Legislativo legisla e fiscaliza; o Executivo adminis­tra a coisa pública e Judiciário julga aplicando a lei. Esse sistema de freios e contrapesos evita os abusos dos outros poderes e mantém o equilíbrio. Assim a tentativa de golpe e perpetuação no poder foi contida.

Considerando que muitas nações adoram imitar os americanos, fica aí um bom exemplo de superação de conflitos. Mas nem tudo é festa e Biden sabe que existem inúmeros obstáculos para serem superados. Para tanto será necessário criatividade e coragem como a da jovem escritora negra Amanda Gorman, autora do poema “The hill we climb” (“A colina que escalamos”) que retrata a polarização política.

Ela afirma que “Embora a democracia possa ser periodicamente adiada, ela jamais pode ser derrotada para sempre”. Também reforça a necessidade de compor um país que pertenças às culturas, às cores e valores de todos. Depor as armas para mostrar a alma, deixar de semear divisão, olhar para o passado para consertar erros e desatar nós e não desviar ou ser detido pela intimidação. O poema termina com um alerta: “Quando chega o dia, saímos da sombra em chamas e sem medo. O novo amanhecer floresce quando o libertamos. Pois sempre há luz. Se ao menos formos corajosos o suficiente para ver isso”.

Lá eles estão avançando, por aqui parece que estamos retrocedendo. É tempo de parar e corrigir a rota. Ao observar os erros e acertos alheios, podemos colher grande aprendizado resolvendo problemas internos e re­posicionando-nos no cenário mundial. Temos um povo maravilhoso, falta a coragem para sair da sombra.