O Brasil das desigualdades entristece quem não perdeu a capacidade de enxergar. Nunca se viu tanta pobreza escancara­da pelas ruas. Não é digno morar na rua. Os discursos dos que sustentam essa tese agridem o bom senso. Teto é tudo. Onde foi parar o simbolismo do “lar”, o refúgio da intimidade, o territó­rio livre reservado à prática da intimidade humana?

O espetáculo de pessoas dormindo nos passeios em pleno dia é o atestado do retrocesso civilizatório a que chegamos. O pior é que esses “invisíveis” já não incomodam a maior parte da população. Salta-se sobre as pernas do jovem adormecido sem qualquer constrangimento. Como replicar frases de efeito como “enquanto houver um brasileiro desempregado, não haverá paz social no Brasil”? Alguém ainda acredita nisso?

Os factoides alimentam a mídia espontânea, que super­dimensiona tragédias pessoais e deixa o drama da multidão sob permanente disfarce. O que o Brasil precisa é de seriedade e ação. Menos governo, mais cidadania. Será que estamos preparados para deixar a cultura imperial que ainda reina? O puxa-saquismo institucionalizado em torno aos detentores de poder? O clima de Polyana, de que tudo está bem e ainda vai ficar melhor? A tática das homenagens, a render culto ao per­sonalismo e a teimar em ignorar a miséria que assola o País?

Enquanto o timão da economia não for conduzido com seriedade, não haverá Brasil correspondente à nossa ilusória pretensão. Havíamos dado alguns tímidos passos. O teto de gastos era uma boa intenção. O parlamento o flexibilizou. O Banco Central tentou recuperar autonomia e credibilidade. O boom da Bolsa e a queda do dólar poderiam evidenciar que os brasileiros confiam na nova fase. Não têm outro recurso! Têm de acreditar que a velha política precisaria ser banida de vez, os calhor­das afastados da vida pública e a meritocracia ser levada a sério.

A inflação está sob controle. A reforma da CLT acabou com o famigerado imposto sindical. Acreditou mais na autonomia entre trabalhador e empresário. Haverá risco de retorno à mamata anterior?

Precisamos de menos empresas estatais. De menos estados. Temos urgência de um Estado indutor, não um Estado tutor. Mas ainda estamos longe de um cenário promissor. Como será feita a Reforma da Previdência? Será que ninguém percebe que logo não haverá recursos para honrar proventos de aposenta­doria nem pensões?

Haverá coragem e pertinácia para promover a Reforma Tributária? Haverá coragem para reduzir o tamanho da União? Haverá destemor para reverter a distrito o muni­cípio absolutamente incapaz de sobreviver sem a rotineira mendicância junto ao Estado-membro e à União? Haverá peito para converter em Território o Estado que também não tem condições de se sustentar?

Quem fará a reforma política, para acabar com quatro dezenas de partidos ou para permitir candidatura avulsa? Quem chamará a família para participar, como é seu dever e obrigação, da educação de seus filhos? Quem é que entregará um Brasil livre da burocracia e com atividades estatais delega­das para um exercício em caráter privado, por conta e risco de quem assumir essa delegação?

É muita reforma para um País que não vive sem mamatas, sem jeitinhos, sem falcatruas. Deus queira que haja coragem e oportunidade de mudanças estruturais profundas. Mais ainda: Deus nos socorra, porque se elas não forem feitas, continuará a fuga de cérebros e o capital externo vai procurar outras plagas para investir.

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