ALFREDO RISK

O lateral-esquerdo Pará surpreendeu na entrevista co­letiva desta terça-feira. Quando se aguardava respostas mornas sobre o desempenho do líder Botafogo no Campeonato Bra­sileiro da Série B, o atleta fez um ‘mea culpa’ sobre seu pas­sado no futebol e falou com co­ragem dos erros cometidos na carreia. Aos 24 anos de idade, com passagem por vários gran­des clubes do país, admitiu que aplicou muitos ‘migués’ em sua vida de boleiro e que deixou le­var por uma certa soberba.

Na linguagem do mundo da bola, ‘migué’ é uma gíria empregada para definir aque­le jogador que não quer nada com nada, foge do jogo. “Era muito indisciplinado e isso me atrapalhou,” reconheceu.

Nascido Anderson Ferreira da Silva, em Capanema, no Pará, o jogador despontou para o fute­bol brasileiro no Bahia, em 2014 e, em 2015, chamou a atenção do Cruzeiro, clube mineiro com o qual assinou contrato por qua­tro temporadas. Antes, quando ainda jogava no Sub-20, o late­ral chegou à seleção brasileira. Vestiu a camisa canarinho e es­teve no Torneio Internacional de Futebol Sub-20 de L’Alcúdia, em Valência, na Espanha. A carreira fluía e o destino do atleta parecia ser promissor.

Fez 16 jogos pelo Cruzeiro e estava em plena forma, atacava e defendia com facilidade, suas principais características, além da bola parada. Mas conside­ra que as oportunidades foram poucas. Mesmo assim, desper­tou o interesse do Lion e, por pouco, não acabou no futebol francês. Foi parar no Atlético Paranaense, onde estava o téc­nico Paulo Autuori, que veio a se transformar em seu algoz e, também, no responsável pela transformação na carreira. Jo­gou apenas seis partidas, foi sacado da equipe, e resolveu se revoltar. “Nos treinos, a bola passava por mim e eu não estava nem aí, não me esforçava,”. Esta­va em campo o tal ‘migué’.

Não deu outra: Autuori es­bravejou e disse que não queria aquele tipo de jogador no time e Pará caiu no ostracismo até se transferir para o América-MG, onde se reencontrou e decidiu mudar de vida. “Depois que me apeguei a Deus as coisas muda­ram, deixei de ser indisciplinado e resolvi jogar bola,” falou.

Pará chegou ao Botafogo vindo do Guarani de Campinas. Foi contratado para disputar o Paulista e a Série B. O time foi mal no Paulistão, se deba­teu contra o rebaixamento até a última rodada e o lateral não escapou das críticas. No início do Brasileiro, logo na primeira rodada, foi vaiado intensamente pela torcida que o responsabili­zou por ter falhado no gol mar­cado pelo Vitória-BA, no Santa Cruz, jogo que terminou 3 a 1 para o Bota, em uma grande vi­rada. “Sofri falta naquele lance, mas o árbitro não marcou e le­vamos o gol,” recordou.

Na arquibancada, o filho e a mulher. Mesmo com o triunfo do Tricolor, Pará deixou o cam­po sob vaias e chorou quando se encontrou com Paola. “Senti muito aquele momento, mas sabia que iria dar a volta por cima,” relembrou.

O técnico Roberto Cavalo o manteve na equipe mesmo com o descontentamento da torcida. Nos dois últimos jogos, o atleta se mostrou eficiente e considera a partida contra o São Bento, em Sorocaba, sua melhor atuação com a camisa do Pantera. “Falei para os colegas que não iria pas­sar nada pelo meu lado e cumpri o prometido,” comemorou.

Sobre a campanha do Bo­tafogo no Brasileiro, Pará diz que o time está bem, mas que ainda não é hora de comemo­rar, pois o campeonato é lon­go. “São 38 rodadas e jogamos até agora apenas três, ainda tem muito chão,” completou.

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