Tive oportunidade de estudar Economia Política há 60 anos. O autor mais festejado na época era o inglês John Maynard Keynes que não só fazia importantes reflexões sobre a economia dita liberal, como também conseguia projetar sua personalidade até mesmo sobre o panorama artístico. Foi professor da Univer­sidade de Cambridge.

Se meu conhecimento na matéria era minúsculo, nos dias de hoje praticamente foi pulverizado pela polifonia irradiada sobre a matéria que, consabidamente, lança suas profundas garras até mesmo sobre o estudo da estrutura jurídica do Estado.

Se fosse possível conceituar o liberalismo com simplicidade seria possível dizer que se revela pela existência de um Estado mínimo,­convivendo com um mercado bifronte. De um lado os produtores de riqueza. De outro lado os consumidores de riqueza.

Na época de Keynes, esse equilíbrio explodia de cinco em cinco anos. A venda das mercadorias empacava. As empresas passavam a demitir trabalhadores, que, certamente, aprofundava a crise mais e mais.

A mais perturbadora crise ocorrida até então foi a de 1930. Os Estados Unidos haviam saído da apelidada Primeira Guerra Mundial com poucas intervenções e mínimas perdas. As nações europeias, palco do conflito, estavam afundadas até o pescoço.

Havia um grande estoque de mercadorias e um mercado consumidor tendente ao zero. O Brasil foi levado a queimar a sua principal fonte de riqueza, o café. O Brasil era o seu maior produtor mundial. O Estado de São Paulo era o maior produtor brasileiro. Ribeirão Preto era o maior produtor paulista. Havia café, mas não havia quem o consumisse na escala produzida.

A literatura keynesiana propunha a intervenção do Estado na economia privada. A sociedade havia se convertido numa lagoa adormecida, dizia-se. O Estado deveria acordá-la, até mesmo lançando pedras no seu centro para que suas ondas atingissem suas margens, recriando o progresso.

Abram estradas desnecessárias; lancem garrafas cheias de dinheiro nas minas esgotadas, para que fossem apropriadas por quem as encontrassem, etc. É escusado dizer que a linguagem era mais de cartilha do que de origem acadêmica.

Vários países adotaram esse tipo de remédio para fugir da crise de 1930. Entre eles os Estados Unidos de Roosevelt e o Bra­sil de Vargas: se o mercado consumisse mais, gerando ondas na lagoa adormecida, com certeza a produção cresceria, a riqueza brotaria e o desemprego desapareceria.

Reversamente, não deveria o Estado transformar sua admi­nistração num canhão para disparar balas contra o mercado con­sumidor. Se não há quem compre não pode existir quem venda.

A memória daqueles livros alimenta meus dias quando olho para Ribeirão Preto. Ontem como hoje Ribeirão Preto é uma das cidade smais ricas do Brasil. Vive quase sempre da atividade privada. Pouco se vê, como no passado, intervenção do federal e estadual. Ribeirão Preto anda com as próprias pernas que, ainda quando robustas, tendem a enfraquecer. Testemunhamos o fechamento diário de estabelecimentos comerciais. Há contração no consumo. E muito.

O noticiário revela que a lagoa adormece, sofrendo aumento de tributos, como também com a eliminação ou a constrição de antigos direitos individuais. O regime previdenciário é um exemplo.

É possível que Keynes esteja ultrapassado. Mas se algo resta de suas aulas proferidas em Cambridge, estamos caminhando para trás e daqui a pouco poderemos queimar o que ainda resta da nossa produção econômica.

Comentários