ALFREDO RISK

Edson Vieira não economi­za em sua análise sobre o fute­bol brasileiro, que teria deixado de encantar plateias ao redor do mundo com sua arte, para se transformar em um circo de horrores. Segundo ele, foi assim nas Copas de 2014, a dos 7 a 1, contra a Alemanha, e a de 2018, na Rússia, quando a seleção bra­sileira foi eliminada nas quartas de final pela Bélgica.

“Há uma década nós enu­merávamos 10 craques do fu­tebol brasileiro com facilidade. Quero ver encontrar três cra­ques, acima da média, apenas três, nos dias de hoje. Neymar não vale. Quem bate bem na bola? Quem bate falta? Quem é o cara? Nós estamos caminhan­do para um ponto crítico. E sabe qual é o próximo? Ficar fora de uma Copa. Daí vão dizer: Ago­ra chegamos ao fundo do poço. Não. Chegamos antes,” profetiza.

Atualmente no Comercial de Ribeirão Preto, time que dis­puta a Série A3 do Paulista, Ed­son Vieira, ou Edson Maradona, ou ainda ‘El loco, ’ anda preocu­pado com os destinos do esporte mais popular do País e aponta a desorganização, o amadorismo na gestão e a falta de cuidados com os jogadores da base, além de outros interesses, como sen­do as principais causas que le­vam à derrocada. “Futebol e po­lítica não são primos: são irmãos gêmeos, um copia o que há de pior no outro e vice-versa, então é preciso repensar o que temos e o que queremos,” instrui.

Para o ex-meia, que despon­tou para o futebol no Botafogo carioca, onde se profissionalizou aos 16 anos de idade, e chegou à seleção brasileira sub17, outro problema está na formação dos jogadores, o que irá refletir nega­tivamente na carreira dos atletas. “De baixo até em cima, da base ao profissional, tanto a modela­gem do caráter quanto o apren­dizado do esporte são péssimos. Como é então que você pode es­perar o surgimento de grandes jogadores?” indaga.

Edson Viera fica indignado quando aborda a situação das categorias de base nos clubes. “A base brasileira foi jogada na lata do lixo, com todo o respei­to. Os grandes jogadores que se dedicavam a burilar esses meninos foram excluídos e tro­cados por jovens recém-forma­dos em cursos de educação fí­sica, que podem ser bons, mas não têm experiência. Aqui no Brasil deixamos de lado a ida­de, chutamos os mais velhos, chutamos aquele que aprendeu na derrota, o que aprendeu na dificuldade, esse vale muito pouco. O jovem veio sem pre­paro e atropelou,” constata.

E prossegue: “Mas quem dá a canetada”? Quem coloca um treinador na base que tem ape­nas 30 anos de idade? Quem tem essa capacidade? Cadê as pessoas para falarem dos desvios de jogadores. Cadê as pessoas para falarem que há corrupção? E dizem ao menino: vai embora que lá na esquina vão te pegar. Jogador passou por tal clube, não fica e depois volta contrata­do. Porque mandaram embora?

Para o técnico, que no ano passado foi vice-campeão da Copa Santa Catarina pelo Her­cílio Luz, muitos jogadores da base são colocados ‘no colo’ de diretores de clubes, que querem transformá-los em ídolos com objetivos meramente financei­ros. “Essa gente está assassinan­do o futebol brasileiro,” afirma.

“Tive grandes treinadores que me ensinaram muito, entre eles Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Orlando Fantoni, Zaga­lo, Jorge Vieira,” relembra.
Retratos

Série A3 é um ‘deserto’
Considerado um dos maiores vitoriosos na Série A3, Viera diz que a divisão é um deserto e não um paraíso, mas que no Comercial, as coisas são diferentes, e usa uma metáfora para explicar. “Hoje eu tra­balho onde há remédio para picada de cobra, escorpião, quando chega a água não é miragem. Estou em um clube que tem condição de A2 e não de A3. Quem dirige o Comercial nos dá essa garantia,” compara.

O técnico não se considera um injustiçado por ainda não haver sido convidado para dirigir um clube das principais divisões do futebol. “Es­tou preparado para trabalhar na A do Brasileirão, na Série A do Paulis­ta,” explica. “O elogio sempre deve vir de outras pessoas, mas estou preparado,” desabafa.

Apelidado de Edson Marado­na por João Saldanha, jornalista e técnico da seleção brasileira nas eliminatórias da Copa de 1970, por causa de sua habilidade com a per­na esquerda, Edson Vieira quer fazer história no futebol brasileiro, agora como técnico.

Aos 53 anos de idade, ele sabe que ainda tem uma longa carreira pela frente e que tudo pode acon­tecer menos abandonar o futebol, porque como disse a pastora Cristi­na, não é isso o que Deus quer.

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