Estou sem ar, mas vou resistir

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professor

O dia 25 de maio passa a ser uma das datas mais relevantes da história contemporânea na luta por direitos civis, igualdade social e fim do racismo. Ela marca a morte de George Floyd, que desenca­deou uma série de protestos iniciados nos Estados Unidos e alastra­dos por diversos países. O que muitos devem estar se perguntando é o real motivo de tamanha comoção.

Vale lembrar que os estadunidenses experimentaram uma guerra civil onde brancos sulistas derrotados, não aceitavam que os negros, recém-libertos, tivessem os mesmos direitos e ocupassem os mesmos espaços que eles. A consequência foi a implantação de políticas segre­gacionistas que perduraram por muito tempo e continuam incutidas na mente de várias pessoas, inclusive autoridades políticas e policiais.

Em terras brasileiras, esse tipo de violência também não é novi­dade, especialmente contra os negros, que desde 1888 esperam a im­plementação da liberdade, da igualdade e da justiça social tão faladas e pouco praticadas. Cotidianamente ocorrem agressões, humilhações e morte provadas em confrontos ou em situações inexplicáveis como o ocorrido com o garoto João Pedro. Nos dois países, além da dor da perda de familiares, a população convive com a manipulação de informações e a costumeira cultura de atribuir mortes a fatalidades, enganos, legítima defesa ou outras desculpas quaisquer.

Floyd representou milhões de pessoas que em todo plane­ta diariamente são massacradas e diminuídas em seus direitos e dignidade humana, notadamente os afrodescendentes que já não aguentam ouvir as expressões: você não é confiável! Você não é belo! Seu cabelo não é bom! Você não é capaz! Você não consegue! Você não pode! Se antes a chibata cortava a carne, hoje as ofensas atacam a alma e a exclusão social sufoca. Por vezes chegamos a ficar sem ar, mas continuamos resistindo.

Diferente de Martin Luther King e Malcon-X que foram assinados por serem grandes lideranças, George Floyd tornou-se uma grande li­derança por ser assassinado. O “bom gigante” não tinha discurso, nem bandeiras, queria apenas viver e ser feliz, materializava o que muitos já sabiam: que os negros são as maiores vítimas das forças policiais, estão morrendo mais na pandemia e perdendo mais empregos. Se no pas­sado era possível mudar cenas, forjar provas e alterar narrativas, agora com as tecnologias de gravação e divulgação de imagens, a verdade começa a aflorar e a história a ser contada com mais fidelidade.

Diferente de outras tragédias que ganham manchetes em um dia e são esquecidas no outro, agora temos uma oportunidade real de promover mudanças efetivas, assim sua morte não seria em vão. A solidariedade dos não negros, principalmente jovens, expressa nos vários atos, passeatas, discursos e manifestações acendem uma cha­ma de esperança de que os povos começam a literalmente exercer a empatia. Eles gritam, marcham, recebem bombas, cacetadas, tiros e até são presos, sentindo na pele, nos últimos dez dias, o que seus semelhantes sentiram nos últimos séculos.

Os manifestantes nos inspiram a sair da zona de conforto. Eles estão fazendo sua parte e nós? O que cada um de nós pode fa­zer? Postar uma mensagem de apoio, curtir ou compartilhar uma imagem na internet é legal, mas muito pouco. Não ser racista já é bem melhor, mas não é tudo. Ser antirracista é um avanço enorme. Adotar posturas objetivas para combate ao racismo, preconceito e discriminação é o ideal. No ambiente de trabalho, na escola, no lazer, no culto religioso, enfim, em todos os espaços de convivência, existem oportunidades objetivas de fazer a diferença, basta começar.

Temos, ainda, a oportunidade de exigir das autoridades constitu­ídas no legislativo, executivo e judiciário; no congresso, nas assem­bleias legislativas e câmaras municipais; na presidência da república, nos governos estaduais e prefeituras, quais as ações concretas de políticas públicas de inclusão? Vamos fazer um exercício agora, olhando a realidade de nossa cidade. O que tem sido feito? Nada? Então é hora de mudança!